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Dez anos depois...


Soube hoje que perfazem dez anos que morreu Maria Ondina Braga. O jornal Macau Hoje dedicou-lhe um suplemento [ler aqui].
Estou longe dos seus livros, só posso escrever de memória, uma memória nublada pelo sentimento. 
Dediquei-me à sua escrita, criando este blog. Hoje tem na sua terra natal um espaço que lhe é dedicado [ver aqui].
Que me diz esta escrita que não desisto de ver editada em obra completa?
Repito-me ao dizer: fala-me, muito intimamente da Malanje onde nasci e onde ela leccionou, onde chegou de automotora a ler Camilo Castelo Branco. Fala-me de Macau e China onde eu pernoitei numa noite da vida que durou onze meses. Só  da Índia de onde saiu no último contingente antes da invasão pela União Indiana fala sem que eu me reconheça.
É uma escrita minha que eu gostaria que fosse de todos os outros. Mas sem ilusões, porém.
Fala escrevendo, que é a sua forma de dizer.
Hoje os vivos recuperam-na da lei do esquecimento a que a votaram. Nisso as efemérides ajudam até ao próximo virar de folha. Amanhã voltaremos a estar praticamente sós. 
«É uma escrita que não vende», disse-me um editor, «tal como a da Irene Lisboa». Talvez por ser triste, uma tristeza nascida na clausura da revolta mansa. Não por ser um escrever historicamente situado, porque o humano que por ali perpassa é o Homem de sempre, esse ser vagueante que ela foi buscar aos confins enegrecidos do porto interior do Rio das Pérolas, à recatada Inglaterra rural, à luxuriante África. Seguramente por ser uma escrita do interior sensível, a alma peregrina como aqui já disse.
Ler Maria Ondina é hoje saber apreciar da sensibilidade a delicadeza, da sensualidade a fineza de trato. É vê-la, contrita, nos seus quartinhos acanhados de professora a conviver com a modéstia, a alimentar-se de privação, pressenti-la nocturna, entre véus de segredos que mal afloram, púdicos, naquela ânsia de dar-se quase sem ter a quem. É uma escrita que na voracidade do nosso tempo tem, é certo, um número limitado de apreciadores. Não há decadência, antes dignidade, está limpa de vulgaridades, não é extensiva para poder ser vendável aos que dos livros gostam do grosso tomo a desfolhar desatentamente.
Mesmo que seja hoje para muito poucos, será para cada vez mais. É essa a sua grandeza, envergonhar-mo-nos por a termos ignorado.

A triste efeméride

Em 2006 criei um blog dedicado a Maria Ondina Braga. Em 14 de Março de 2006 lembrei que era dia de aniversário da sua morte. Hoje o amigo Ernane Catroli, um devotado e sentido leitor de suas obras, lembrou-me a efeméride triste, com aquela discrição que é a sua suma delicadeza.
Lembrei como o tempo passou e como não cumpri aquilo a que me propusera: arranjar modo de ser editada a sua obra completa, escrever uma biografia do seu ser interior, o que viveu a vida com a intensidade recolhida como ela merece ser vivida.
Lembro-me de ter viajado até Braga falar com a família. Lembro-me de ter estado na Biblioteca Pública dessa cidade a copiar fichas bibliográficas que faziam a recensão das obras que traduziu. Lembro-me de ter falado com quem a conheceu, para que assim a conhecesse eu próprio um pouco melhor.
O destino quis, no entanto, que tudo operasse de uma outra forma: conheci alguém que vivia na mesma rua, para quem ela era a discreta mulher que passa. Uma história de amor deu azo a um escrita de enamoramento. É pelo caminho mais longo que se fazem as mais belas  viagens e na merecida companhia.

13 de Janeiro

Nasceste em Braga no dia de hoje, no ano de 1932. Um dos leitores que me escreveu disse-me que foi teu vizinho quando moravas em Benfica e te conhecia, discreta que eras, como «a mulher que passa».
Nasceu-me no peito por causa da tua obra uma afeição que se tornaria amor se o amor fosse possível. Li tudo teu, coleccionei tudo que te dizia respeito, tentei entender tudo sobre ti, quando poucos sabiam que tu existias. Sofri contigo o isolamento dos quartinhos em que viveste, a modéstia da tua vida, senti a mortificação pelo trabalho obrigatório de tradutora, a humilhação digna da tua solidão inconsolável.
Estiveste em Malanje, onde eu nasci e eu não sabia que tu estavas lá nem que tinhas viajado na mesma automotora em que viajei, porque não é possível um coração de criança saber o que a vida não lhe permite ainda conhecer. Estiveste em Macau, por onde eu passei, onde viveste a Macau que eu gostaria de ter vivido, estrangeira e recolhida, Deus como testemunha, os deserdados como teus irmãos. Estiveste em Goa onde eu gostaria de ter estado, salvo que escrevi um livro em que por ali se passou a história, o que foi uma forma de ter inventado uma estadia tão real como a que tivesse sido.
Penso tantas vezes escrever-te a biografia, uma narrativa só de interiores e de sentimentos, sem sensações, vivida num corpinho em que a luxúria se fez êxtase, a vida como uma oração.
Vim hoje aqui, onde quer que te julguem, dizer-te que estás comigo, Maria Ondina. É o dia do teu aniversário.

Moído de saudades

Voltei aqui moído por uma súbita saudade, carregado de recordações. Lembrei-me dos primeiros pontos de referência que me fizeram ligar à sua pessoa: o ter estado em Malanje, numa altura em que eu lá vivia, porque lá nasci, e afinal nem a sonhava e o ter estado em Macau, onde eu também estive; de estar um fim de tarde à conversa na casa do Dr. João Bigote Chorão, com uma janela como recanto de intimidade intelectual, que me falou dela com enlevo e carinho e sentida admiração; de me ter deslocado a Braga, de comboio, para conhecer-lhe a família, e ter conversado com uma irmã que me respondia ao que perguntava por bilhetinhos, incapaz já de falar; ter visitado a Biblioteca Pública e ali inventariar os livros que traduziu e foram muitos, pois as traduções eram parte substancial do seu sustento, quantas vezes não pagas nem os direitos da escrita; o ter acalentado a ideia de lhe editar - nem sei com que dinheiro - a Obra Completa, e ter encontrado, na voz de muitos, ao lado de palavras de encorajamento, tantas de desalento e os seus livros rareiam e tão poucos a conhecem; o ter sonhado escrever a sua biografia interior - a única que teve, aliás, porque a vida no mundo a que chamamos, incertos, de real, a pouco se reduz, essencialmente professora e escritora e tudo assim se resume.
Dediquei-lhe um blog, este blog, como um acto de amor. Ama-se uma pessoa que nunca conhecemos, que nunca nos viu, cuja vida não se cruza com a nossa. Ama-se quando sem desejo e sem posse.
Hoje o José António Velozo apareceu-me, generoso, amigo como sempre, com uma prenda comovente: dois livros dela, um deles com um autógrafo. Um deles na edição original, de que tinha ouvido apenas falar, tão longínquo como se uma referência bibliotecária que só com uma mnemónica se guarda: a Sociedade de Expansão Cultural.
Voltei aqui, Maria Ondina, moído por uma súbita saudade de ti. Vou ler a Estátua de Sal. Uma alma amiga pediu-me que o encontrasse. Deram-me hoje este exemplar. É a sua biografia. Em crónicas. o mundo retalhado. O seu pequeno mundo que pela escrita tornou grande.



5 anos


Hoje, sexta-feira, dia 14, perfazem cinco anos que faleceu Maria Ondina Braga. Tinha-lhe escrito uma carta à qual já não deu resposta, demasiado doente para o fazer. Na altura doeu-me o silêncio, sem saber que mais me doeria ainda o saber que nunca teria resposta. Ontem estive num alfarrabista que ainda a conheceu: «uma pessoa modestíssima», disse-me, «uma grande mulher», acrescentou.