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A volúpia dos vocábulos


Escrevi já várias vezes sobre este livro [ver aqui]. E volto a ele, menos talvez por ser, como tantos outros seus, biográfico, este mais explicitamente retrato da vida, mas porque com ele e a sua pureza essencial me sinto regenerado como se água límpida me banhasse do rio turvo e lodoso da vida corrente que me chega ao assomo da janela.
Regressei, desta vez na edição primitiva da Sociedade de Expansão Cultural, não pela apetência gulosa das primeiras edições, mas por ser exemplar que mão amiga do José António Veloso me fez chegar com a dedicatória a seu Pai, o juiz Francisco José Veloso.
Braga e a escrita uniram a escritora e aquele a quem dedicou a obra, para a qual Tomaz de Figueiredo escreveu «algumas palavras».
Tenho-o lido pela noite, em excertos, e neles o seu sentir por Macau, vinda de Goa, por Angola, pela Inglaterra, de que deixou a dor magoada da clausura, a excitação desperta pela Natureza, a fantasia do amor sonhado como bebedeira de mansa alucinação.
Povoada pela «solidão que se agarra ao peito como hera a um muro». vivendo «já só daquilo de que nenhuma pessoa pode viver - dos gestos, dos sons, das cores», envolta, precoce, na leitura, entre «a volúpia dos vocábulos, a tontura da sua música, o seu beijo cálido», o homem que, ao dobrar da esquina lhe embargou o passo, «a minha tristeza a abraçá-lo, longa, carinhosamente do jeito que os homens gostam de ser abraçados»

Um tempo só

Não sei qual a razão mas fantasiei que nunca terá encontrado quem amar. E li todos os seus livros em busca de uma pálida menção que fosse que me desse qualquer pegada dessa sua travessia pelas terras dos sentimentos e encontrei neles todos os amores possíveis por todas as possibilidades amorosas menos aquela que corre o grave risco de passar por ser o amor convencional: o amor que decorre da lei da atracção universal não dos corpos celestes mas dos corpos humanos, espécie de Lei de Newton da gravitação pela qual as almas se equilibram nas elípticas das suas órbitas sensitivas.
Tinha lido afinal tudo mal porque lera tudo distraidamente. Sei que se escrevem já teses de doutoramento sobre a sua escrita, haverá quem tudo leia por querer descortinar pela escrita a sua técnica de vida, como se viver fosse um método e contar o vivido um meio.
Esta noite, porém, abri ao acaso o Estátua de Sal e encontrei-o aquele homem «que não pertencia ao mundo dos mais». Era russo, fumava cachimbo e foi em Hong-Kong, o homem que tinha «os olhos de oiro», o homem que porventura não existiu.
«Não sei se bom se foi mau o nosso amor. sei que foi belo», diz Maria Ondina. «Quantas vezes nos teríamos encontrado? Se penso bem, afigura-se-me tudo um tempo só». Um breve instante, em cada momento a totalidade do tempo.

Moído de saudades

Voltei aqui moído por uma súbita saudade, carregado de recordações. Lembrei-me dos primeiros pontos de referência que me fizeram ligar à sua pessoa: o ter estado em Malanje, numa altura em que eu lá vivia, porque lá nasci, e afinal nem a sonhava e o ter estado em Macau, onde eu também estive; de estar um fim de tarde à conversa na casa do Dr. João Bigote Chorão, com uma janela como recanto de intimidade intelectual, que me falou dela com enlevo e carinho e sentida admiração; de me ter deslocado a Braga, de comboio, para conhecer-lhe a família, e ter conversado com uma irmã que me respondia ao que perguntava por bilhetinhos, incapaz já de falar; ter visitado a Biblioteca Pública e ali inventariar os livros que traduziu e foram muitos, pois as traduções eram parte substancial do seu sustento, quantas vezes não pagas nem os direitos da escrita; o ter acalentado a ideia de lhe editar - nem sei com que dinheiro - a Obra Completa, e ter encontrado, na voz de muitos, ao lado de palavras de encorajamento, tantas de desalento e os seus livros rareiam e tão poucos a conhecem; o ter sonhado escrever a sua biografia interior - a única que teve, aliás, porque a vida no mundo a que chamamos, incertos, de real, a pouco se reduz, essencialmente professora e escritora e tudo assim se resume.
Dediquei-lhe um blog, este blog, como um acto de amor. Ama-se uma pessoa que nunca conhecemos, que nunca nos viu, cuja vida não se cruza com a nossa. Ama-se quando sem desejo e sem posse.
Hoje o José António Velozo apareceu-me, generoso, amigo como sempre, com uma prenda comovente: dois livros dela, um deles com um autógrafo. Um deles na edição original, de que tinha ouvido apenas falar, tão longínquo como se uma referência bibliotecária que só com uma mnemónica se guarda: a Sociedade de Expansão Cultural.
Voltei aqui, Maria Ondina, moído por uma súbita saudade de ti. Vou ler a Estátua de Sal. Uma alma amiga pediu-me que o encontrasse. Deram-me hoje este exemplar. É a sua biografia. Em crónicas. o mundo retalhado. O seu pequeno mundo que pela escrita tornou grande.



O claustro sem ninguém

Devo à amabilidade de uma leitora, Helena Laranjeiro - que me perdoe se a embaraço, citando-lhe o nome - o ter-me lembrado estas duas obras da Maria Ondina: Quando o claustro é sem ninguém. Braga, Fundação Bracara Augusta, 2000, textos sobre Braga retirados de Estátua de Sal e Contos de riso e siso. Braga, Autores de Braga, 2000, em co-autoria com Luís da Silva Pereira e Maria Adelina Vieira.
Tinha lido o segundo livro na Biblioteca Pública de Braga, quando visitei a cidade. O dia terminou no Café Viana. «É o das Arcadas», disse-me a minha interlocutora que não mais vi. Ficou-me então o claustro sem ninguém.

Num pedaço de papel

Estava mesmo ao lado do Tribunal, era a Biblioteca Teixeira-Gomes, porque ele nasceu em Portimão. E nela encontrei um único livro da Maria Ondina Braga, logo por acaso aquele que eu ando a ler, logo por coincidência na edição que não é a que tenho, para grande surpresa com uma nota introdutória do Tomaz de Figueiredo. Nesta altura ela assinava só como Maria Ondina. Era tarde, doíam-me os pés, o corpo pedia paragem, a cabeça ar fresco. Mas um desejo irreprimível, o de ler o que por ventura não lerei tão cedo, levou-me a sentar-me num canto livre de uma mesa, pedir um pedaço de papel e anotar, numa letra gatafunhada, este momento. Tomaz de Figueiredo pergunta-se: «Apresentar este livro? Mas um livro destes? Apresentá-lo só o apresentaria se a cada leitor aqui o chamasse e o lesse». Eu estava na rua, vinha do tribunal, era tarde, doíam-me os pés, o corpo pedia paragem, ele chamou-me para num canto livre daquela mesa ler-me a Maria Ondina, a Estátua de Sal.

Um penoso esforço

Estes dias parei estupidamente, porque já não aguentava mais de cansaço. Trouxe comigo a Estátua de Sal, precisamente no ponto em que ficara. Fui buscá-lo hoje, ao livro, naquela edição do Círculo de Leitores com uma capa lindíssima que nem sequer se deram ao trabalho de dizer de quem era. Abri a esmo e li: «Precisara, sem dúvida, de cavar o monte de esterco com as próprias unhas. Fora-me exigido um grande, um penoso esforço, e uma vontade de homem». Se há isso que é «uma vontade de homem, eu tenho-a. No mais, é tudo igual, incluindo o cavar o esterco com as unhas.

A casa fronteira

Querendo lê-la, livro a livro, em todos os livros, estou com a Estátua de Sal, o seu terceiro volume em prosa. Parei no capítulo quinto: «nesse tempo eu acreditava que viviam anjos por trás das janelas sempre fechadas de uma casa fronteira à nossa». Parece ingénuo, é ingénuo, mas ao mesmo tempo preparatória deste extraordinário momento: «Se chovia, testa colada à vidraça, entrevia os olhos tristes dos anjos espiando, como eu, entre grades de cristal que iam das nuvens ao chão». Feroz de sentimentos, o que se rir da crença na casa dos anjos. Feroz de afectos, o que nunca teve na vida uma vida a que chamasse «nesse tempo». Feroz de solidão quem não teve, ao menos na infância e por uma vez, uma casa fronteira à sua, para a qual olhasse, com olhos tristes, nos dias em que chovia, as janelas sempre fechadas.

O céu em chamas

Dizem que a Estátua de Sal é um livro biográfico da Maria Ondina Braga, quando eu vejo em todos os seus livros o mundo contado tal como ela o viveu. Estou a lê-la agora e com ela a encontrar-me em Malanje, onde nasci, e com ela a assistir, garoto, extasiado, ao fogo redentor das queimadas, sentindo no crepitar incendiário do capim seco a arder, um estranho som que «lembrava um macabro roer de ossos ressequidos». Daqui a uma horas, largada a leitura, eis-me no «mundo carregado de civilização e de sofisma». Por agora, como se num interregno de paz, leio-a, tendo os seus livros como companhia, a sua memória como um afago.