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Auditório de cegos


Tem hoje lugar em Braga [ver aqui] um colóquio internacional dedicado a Maria Ondina. Lamento que a vida me tenha impedido estar presente como espectador. 
Desde há dez anos que mantenho este blog em sua homenagem. Desde há tantos anos almejo ver reeditada a sua obra. Supus mesmo que me seria permitido poder fazê-lo. Para isso fiz copiar na íntegra o seu primeiro livro em prosa, crónica de vida e de viagem, inaugurado com a chegada precisamente à cidade de Malanje onde nasci, livro hoje diria impossível de encontrar, mesmo em alfarrabistas. 
Houve tempos em que era uma escritora votada ao esquecimento. Hoje tem em torno de si estudiosos e eruditos, sem ter leitores porque os livros mal existem, esgotados que estão.
Estou a ler de novo toda a sua obra, que consegui pacientemente reunir, porque me pediram que em Dezembro, a poucos dias do Natal, falasse sobre quanto escreveu e quem foi, na Biblioteca Nacional. 
Á ilusão de que esta obra primordial pudesse acompanhar-me, sucede agora o desencanto. Falarei, pois, a haver assistência, como que para um auditório de cegos, que do livro saberão o que ouvirem dizer. 

Um e todos

De novo João Borges e um outro artigo seu sobre Maria Ondina: referência ao seu primeiro em prosa, o Eu Vim para Ver a Terra e à novela A Casa Suspensa. Obrigado ao autor por ter assinalado a sua referência. Todos não seremos demais para que não caia no esquecimento esta notável escritora. Aqui.

A automotora

«Parti na automotora das 8 e 30 da manhã. Comigo dezoito das internas, minhas alunas, rumo às suas casas no mesmo gozo de férias. Seguíamos juntas na automotora, com a diferença de eu vir, como as pessoas mais pacatas, sentadas no meu lugar, e elas na plataforma cantando e conversando com o revisor». É Maria Ondina, fazendo em Angola o caminho de Luanda à então chamada Vila Salazar. Claro que a automotora não é esta. Esta é minha.
P. S. O livro chama-se Eu Vim para Ver a Terra. A sua primeira obra em prosa.

Um mar carregado de presságios

O livro chama-se Eu vim para ver a terra. Editou-o em 1965 a Agência-Geral do Ultramar, na sua colecção «Unidade», iniciando com ele a secção «Crónica». A autora assinou-o como «Maria Ondina», sem mais apelidos. Só depois passaria chamar-se «Maria Ondina Braga». São notas de viagem, sobre Angola, Goa e Macau, onde viveu e onde leccionou. O livro perseguia-me, por ser o único que me faltava da colecção que fui juntando. Ao tê-lo finalmente nas mãos, emprestado por alguém que levou a gentileza ao ponto de o requisitar numa biblioteca como se fosse para si, cedendo-mo, verifiquei com espanto que as primeiras crónicas tratavam do que eu tanta vez fiz na minha terra natal: a viagem de Luanda a Salazar e de Salazar a Malanje, em caminho de ferro, na automotora das oito e meia da manhã. Foi com esse sentimento de familiaridade e de pertença que me dediquei a lê-lo. Africano não africanista regressei pelas suas páginas ao universo portentoso daquela «lembrança antiga e magoada que nos pertence», àquela «terra úbere até ao esbanjamento», «terra dos primeiros dias do mundo, misto de espiritual e de pagão, de angélico e de demoníaco, a que recebe as chuvas em bacanais de ramos e raízessob um céu de púrpura reflectindo-se o mar pálido, carregado de presságios». Tal como ela, através das suas páginas, eu vim para ver a terra