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A que jamais o mundo compreendeu...


Li esta noite a primeira parte do livro de versos O Meu Sentir, editado em Braga em 1949, o ano em que eu nasci, tinha Maria Ondina, como expliquei aqui, vinte e sete anos.
Talvez possa encontrar-se na poesia uma biografia, sobretudo quando ela é íntima, e surge como um falar da alma, pegadas na neve do caminhado, ou pelo menos sentir um pressentimento de como foi.
Há por esta escrita ingénua, o retrato do seu ser sensitivo, «tristinha», de uma «tristura», constrangida «frio e de pavor», povoada pela mística, «triste e excitada», a «alegria branca de noviça», «o prazer agridoce de ser só».
Mas, há também o arroubo da paixão, fulgurante «passarinho com garras de leão», corpo incendiado por «beijo que por ser dado sobre a boca/me abafou um suspiro...e me pôs louca».
Livros de saudades de uma Mãe que se foi «amiga de verdade», que num poema chamado "Ela" surge no inesperado retrato, a adensar mistério, o «sorriso cheio de doçura», o «olhar de paz e de bondade» e, eis o ambíguo, «bem junto ao meu, seu coração amante/pulsava, carinhoso e vigilante», livro prenunciador de viagem, Ondina errante, ela que sofria de «lonjura e de ansiedade», a confessar-se «sinto às vezes desejos de fugir/para terra ignorada, sítio incerto/p'ra onde haja só silêncio a florir/e estrelinhas de paz em céu aberto», «fugir, fugir», fugir «p'ra sentir todos longe...e Deus mais perto».
De todos os versos, talvez Ansiedade tenha sido o que mais vincou a sensibilidade, de uma pueril grandeza, premonitório de todo o tempo por viver: «hás-de dizer ao mundo que sou eu/aquela que padece...mas não grita/a que jamais o mundo compreendeu/a louca, a descontente, a esquisita; por trás do tempo, qual espesso véu/perscruto uma outra vida mais bonita!/que importa se ninguém a conheceu?/a minha alma é céguinha e acredita; e um dia, além dos montes, p'la tardinha/hei-de achar essa vida...há-de ser minha!/há-de trazer consigo a Paz Bendita!; então dirás ao mundo; lá morreu/a que jamais o mundo compreendeu:/a louca, a descontente, a esquisita.»

Uma vida sem idade

Rectifico hoje neste blog o que já deveria ter sido feito há mais tempo, a data de nascimento de Maria Ondina Braga: 1922 e não, como corre e do que me fiz eco, 1932.
Devo a amabilidade da informação a Luís Braga, seu sobrinho, que a partilhou comigo já em 2008. 
A partir daqui e como me lembrou a análise da sua obra terá de ser encarada. O livrinho de poemas O Meu Sentir que já referi aqui e também aqui, não foi, assim, escrito quando ela tinha dezassete anos, sim vinte e sete.
Fora isso é uma obra sem idade, como se o tempo na sua vida tivesse estagnado, extasiado, em redor de si.
E já agora outro esclarecimento vindo da mesma fonte: as ilustrações do livro, como a que copio para este post, são de José Virgílio Braga, irmão mais novo de Ondina, pai de Luís Braga.

Um tempo só

Não sei qual a razão mas fantasiei que nunca terá encontrado quem amar. E li todos os seus livros em busca de uma pálida menção que fosse que me desse qualquer pegada dessa sua travessia pelas terras dos sentimentos e encontrei neles todos os amores possíveis por todas as possibilidades amorosas menos aquela que corre o grave risco de passar por ser o amor convencional: o amor que decorre da lei da atracção universal não dos corpos celestes mas dos corpos humanos, espécie de Lei de Newton da gravitação pela qual as almas se equilibram nas elípticas das suas órbitas sensitivas.
Tinha lido afinal tudo mal porque lera tudo distraidamente. Sei que se escrevem já teses de doutoramento sobre a sua escrita, haverá quem tudo leia por querer descortinar pela escrita a sua técnica de vida, como se viver fosse um método e contar o vivido um meio.
Esta noite, porém, abri ao acaso o Estátua de Sal e encontrei-o aquele homem «que não pertencia ao mundo dos mais». Era russo, fumava cachimbo e foi em Hong-Kong, o homem que tinha «os olhos de oiro», o homem que porventura não existiu.
«Não sei se bom se foi mau o nosso amor. sei que foi belo», diz Maria Ondina. «Quantas vezes nos teríamos encontrado? Se penso bem, afigura-se-me tudo um tempo só». Um breve instante, em cada momento a totalidade do tempo.

O meu sentir


O blog Caligrafias recorda um livro de Maria Ondina Braga, hoje desaparecido: O Meu Sentir. «É o primeiro livro de versos de Maria Ondina (Braga) e, diga-se, é o primeiro livro impresso da Autora. Publicada em Braga, esta colectânea poética, saída das Oficinas Gráficas da Livraria Cruz», esclarece Martim de Gouveia e Sousa, de Viseu, a cidade onde fiz o meu Liceu. Obrigado, pela Maria Ondina, pela recordação do tempo em que era novo numa cidade velha, por ter trazido ao mundo dos poucos esta escrita de excepção.

Ondina em poesia

Ao ter revisto, para o referir neste blog, a primeira obra em prosa de Maria Ondina descobri que ela escreveu dois livros de poesia, de que não consegui encontrar qualquer exemplar: O Meu Sentir, editado em 1949 e Almas e Rimas, saído em 1952. Roga-se a qualquer leitor benévolo o favor de uma qualquer informação.