Este fim de tarde deu-me para andar pelos quartos desabitados destes meus blogs. O da Maria Ondina Braga é um exemplo. «Filhos gerados sem paixão nasciam mortos», escreveu ela na novela A Visita, publicado em 1973 no livro Os Rostos de Jano. Este espaço que lhe destinei, pelo contrário, nasceu de uma profunda paixão pela sua escrita. Praticamente esquecida, por muitos desconsiderada, Maria Ondina é um exemplo de uma escrita no feminino excepcional pela sensibilidade, pela densidade dos sentimentos, pela agudeza da observação humana. Reclusa no seu universo pessoal, está ali contida, num interior existencial, a totalidade da essência do mundo que vale a pena ser vivido. Transmuta a carne em alma, toda a Natureza na Pessoa pela alquimia da literatura. Penaliza-me a sua ausência.
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Quartos desabitados
Este fim de tarde deu-me para andar pelos quartos desabitados destes meus blogs. O da Maria Ondina Braga é um exemplo. «Filhos gerados sem paixão nasciam mortos», escreveu ela na novela A Visita, publicado em 1973 no livro Os Rostos de Jano. Este espaço que lhe destinei, pelo contrário, nasceu de uma profunda paixão pela sua escrita. Praticamente esquecida, por muitos desconsiderada, Maria Ondina é um exemplo de uma escrita no feminino excepcional pela sensibilidade, pela densidade dos sentimentos, pela agudeza da observação humana. Reclusa no seu universo pessoal, está ali contida, num interior existencial, a totalidade da essência do mundo que vale a pena ser vivido. Transmuta a carne em alma, toda a Natureza na Pessoa pela alquimia da literatura. Penaliza-me a sua ausência.Indiferente e sôfrega
Os Rostos de Jano é na obra de Maria Ondina Braga uma excelência de sensualidade e em certos momentos de erotismo. Literatura de recolhimento interior, a sua, parece confinar-se a sentimentos tristonhos de ausência´carnal, sem que um afago, uma volúpia, um halo de desejo pareça ferir-lhe as noites ou iluminar-lhe os dias. E, no entanto, há nesta narrativa, escrita em 1973, sempre o interior de piedade pela sua condição de solitária. «Um filósofo chinês disse que o sentimento da comiseração é o começo do amor», escreveu. Haverá quem leia isto e se revolte, pragmática e racional, como isto tivesse sido escrito por «homens que haviam nascido agachados e a quem só alguma, rara mulher, restituiria a altura. Mulher que os aceitasse sem paixão por piedade». Há quem leia isto e compreenda que está aqui o retrato negativo do que resta, num mundo povoado de naufrágios. Uma vida já indiferente, sôfrega e ansiosa.
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