Guardiões da panaceia espiritual, desconfiados ante as maleitas que não enxergam, mestres da medicina metafísia, os chineses. Há que curar primeiro o espírito, logo se cura o corpo, uma só doença, uma única cura. Talvez por isso o nome em mandarim para electroencefalograma se aproxime da ideia de exame celestial. Tudo faz sentido, tudo se une onde tudo se separa: os nervos, todos eles, dão um nó no coração. Eis, pois, Maria Ondina Braga, professora na secção de português no Instituto de Línguas Estrangeiras. Ali chegou no Ano do Cão, em 1982. Disse-o no no seu livro «Angústia em Pequim».
O Natal Chinês
Há no conto O Natal Chinês de Maria Ondina Braga aquele instante em que a filha da senhora Tung asseverava que «o menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa na gaveta». O Menino Jesus vestia ricamente cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto; a deusa, da fecundidade estava nua. Ambos de feições chinesas. Ele filho milagroso de uma maternidade virgem, ela atraía a doce vontade carnal do homem à sua companheira, como o Céu alagando a Terra na estação própria. Talvez daí a tristeza do Menino de Jesus, a ânsia de ter mãe, o desejo de ter sido gerado da substância física de um acto de amor.
Os reguladores do interesse
Irene Lisboa viveu a sua solidão num quarto na Rua de São Bernardo, em Lisboa. Num livro dedicado a algumas «Mulheres Escritoras», Maria Ondina Braga, da mesma família dos desesperados, párias dos afectos, cita-a, lembrando-a nos dois ou três homens que a beijaram, a desejaram passageiramente, «vários, inconstantes, elegantes, estetas, e simultâneamente práticos, reguladores do interesse».
Passagem do Cabo
Maria Ondina Braga esteve em Malanje na mesma altura em que, miúdo, por ali andava, filho de solicitador. Quando a guerra começou, e com ela o cortejo de atrocidades e de rancores incendiados, estávam ambos presentes, ignorando-nos, e sem que a vida nos desse sequer a oportunidade do aproximar. Hoje, um sábado frio, ela morta, eu ainda por aqui, leio-a, folheando-o, como se na ânsia de a encontrar, um dos seus livros. ei-la, enfim, num passeio ao Lombe, com as professores do Colégio das Madres, o mesmo onde ensinou português. Entusiasmada, ela que nascia viva em cada ser, a falar da terra meditativa e úbere, extática e exuberante, das galinhas de Angola, do céu cravejado de estrelas, a estrada povoada de buracos enlameados. Como tudo isso me faz sentir só! Apátrida, filho de uma terra de que não me reconheço, acampado na vida, com os que me restam do álbum desbotado de uma família que desabou, leio-a para me reconhecer: «meu destino é passar».
Uma vida só
Creio que não cometo uma inconfidência ao revelar que a Isabel Mendes Ferreira, a que conhecemos, entrevistou a Maria Ondina Braga. E teve a sensibilidade de descortinar na sua escrita «um discurso claro, doce, misterioso, algo panteísta, onde o lugar das pessoas vem primeiro que a ordem ds coisas». Quantas vezes me revejo, ao lê-la, nessa sua escrita singular, naquele modo de se viver só, ainda que não sozinho.
A planície despovoada
A obra chama-se A filha do juramento, por sinal um dos contos que menos marca quem o lê. Divide-se em três livros, cada um com seu tom, em sua cor. Ilustrações de Helena Santos. Orgulhoso na sua simplicidade, exibe que foi um patrocínio da Imobiliária Teixeira & Filhos, Limitada. É de Ondina Braga, «uma mulher simples que trabalha de noite, bebe chá, e come ervas cozidas como os monges taoistas», que de si fala como «a planície despovoada do meu desprendimento»
Rezar e pecar
Para comemorar os trinta anos de vida literária de Maria Ondina Braga editou-se em 1995 um livro de contos. Um deles chama-se «Sete Palavras» e nele encontro este momento por acaso a propósito de Braga, a sua terra natal e que se lhe incrustrou como nome no próprio nome: «eu quase apostava que podem lá os homens rezar e pecar a um tempo que tudo lhes será perdoado. Nem que não rezem». Leio-a e vejo agora que estou a escrever o que vem no pórtico desta obrinha quase terminal, de uma das líricas de Camões: «que dias há que na alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem em não sei como, e dói não sei porquê». Eu diria agora, como ela, «a um tempo».
O recolhimento da noite
Há quanto tempo eu não a visitava. Mas é assim. Animal acossado, refugio na mata do isolamento, a vergonha das dores sofridas, prisioneiro de uma vivacidade que me é alheia. Procurei-a hoje, ao chegar a casa, precisamente no seu primeiro livro, como se numa oração vespertina, antes do recolhimento da noite. E li-a: «uma impressão de velhice e cansaço extremos, ao lado de um esforçado, inquebrantável desejo de viver, marcava o quadro da absurdidade». É Maria Ondina, no «Eu vim para ver a terra».
Renascer
Um amigo meu descobriu em Macau, numa biblioteca, alguns títulos da Maria Ondina Braga que eu não consigo reconhecer de entre os que tenho na minha livraria, onde julgava ter já tudo o que ela publicou em prosa. Imagine-se o alvoroço de imaginar em alguém mais vida do que a que sonhamos ter conhecido. Espero apenas que «Debaixo de uma redoma», «Chá de jasmim», «A casa suspensa», «A despedida», «A língua», «A professora de piano», «A despedida» não sejam textos de livros que eu já li. Se o forem, viverei o já vivido como se o vivesse de novo, o que é uma forma de renascer.
A sombra dos dias
Estar-se à mercê do destino, de um gesto alheio, doer-nos a sua ausência. Sofrer-se a incompreensão silenciosa ou o desprezo ruidoso. Tornar-se ridículo carpir, encerrar-se a dignidade no interior austero de cada um. Concebido desnaturadamente «tal a primeira mulher do mundo, segundo Confúcio concebera da própria sombra». É assim em Maria Ondina Braga, no conto O Filho do Sol: «a Deusa da Ansiedade velava pelo seu fado, porque nenhum deus sabia o seu horóscopo».
Indiferente e sôfrega
Os Rostos de Jano é na obra de Maria Ondina Braga uma excelência de sensualidade e em certos momentos de erotismo. Literatura de recolhimento interior, a sua, parece confinar-se a sentimentos tristonhos de ausência´carnal, sem que um afago, uma volúpia, um halo de desejo pareça ferir-lhe as noites ou iluminar-lhe os dias. E, no entanto, há nesta narrativa, escrita em 1973, sempre o interior de piedade pela sua condição de solitária. «Um filósofo chinês disse que o sentimento da comiseração é o começo do amor», escreveu. Haverá quem leia isto e se revolte, pragmática e racional, como isto tivesse sido escrito por «homens que haviam nascido agachados e a quem só alguma, rara mulher, restituiria a altura. Mulher que os aceitasse sem paixão por piedade». Há quem leia isto e compreenda que está aqui o retrato negativo do que resta, num mundo povoado de naufrágios. Uma vida já indiferente, sôfrega e ansiosa.
As almas
Eu hoje vou levar-te comigo, Maria Ondina, para um passeio junto do mar. Apanharemos sol, que precisamos, as nossas almas anémicas, os nossos corpos esmaecidos. Num recanto da intimidade, dar-nos-emos as mãos e que ninguém nos veja. Insensato de sentimentos, falarei sem parar. Silenciosa, a nostalgia do silêncio a povoar-te o corpo, os pequenos pés nus marcados na areia, pararás, para que eu te olhe. Escreverás então no teu livrinho de notas, amanhã, na solidão do teu quartinho: «Guardei, sim esta cena: a minha tristeza a abraçá-lo, longa, carinhosamente, do jeito que os homens gostam de ser abraçados». Tu vais, Maria Ondina, ser o meu dia.
Lendo por amor
Eu conheci um Macau miserável de ganância, nojento de rapacidade, repugnante de medíocres vaidades. Eu conheci o Macau dos pequenos burgueses ávidos de consumismo, os esganados de poder, os sedentos do ter. É por isso que ganhei amor a Maria Ondina Braga, por ela ter vivido no mundo de quem é, indiferente ao mundo de quem tem. Como lê-la hoje me enche de remorsos de uma vida por haver! Leio-a, como se me fosse possível expiar-me do pecado de nem ter visto que ela existia, amando-a enquanto viveu.
Na soleira da porta
Há tantos dias sem a ler e a transportar comigo o seu livro, ainda o mesmo. Maria Ondina é a escrita no feminino, um feminino meigo e subtil, feito do intervalo entre os sentimentos e as paixões, o jardim da suavidade, a aspereza da solidão. Sento-me com ela esta noite, mulher para quem os «sonhos eram sempre calmos, sonhos de quem de dia cansa o corpo e não fala de si a ninguém». Estamos na soleira da porta da vida, tranquilos e connosco pacificados.
Num pedaço de papel
Estava mesmo ao lado do Tribunal, era a Biblioteca Teixeira-Gomes, porque ele nasceu em Portimão. E nela encontrei um único livro da Maria Ondina Braga, logo por acaso aquele que eu ando a ler, logo por coincidência na edição que não é a que tenho, para grande surpresa com uma nota introdutória do Tomaz de Figueiredo. Nesta altura ela assinava só como Maria Ondina. Era tarde, doíam-me os pés, o corpo pedia paragem, a cabeça ar fresco. Mas um desejo irreprimível, o de ler o que por ventura não lerei tão cedo, levou-me a sentar-me num canto livre de uma mesa, pedir um pedaço de papel e anotar, numa letra gatafunhada, este momento. Tomaz de Figueiredo pergunta-se: «Apresentar este livro? Mas um livro destes? Apresentá-lo só o apresentaria se a cada leitor aqui o chamasse e o lesse». Eu estava na rua, vinha do tribunal, era tarde, doíam-me os pés, o corpo pedia paragem, ele chamou-me para num canto livre daquela mesa ler-me a Maria Ondina, a Estátua de Sal.
Um penoso esforço
Estes dias parei estupidamente, porque já não aguentava mais de cansaço. Trouxe comigo a Estátua de Sal, precisamente no ponto em que ficara. Fui buscá-lo hoje, ao livro, naquela edição do Círculo de Leitores com uma capa lindíssima que nem sequer se deram ao trabalho de dizer de quem era. Abri a esmo e li: «Precisara, sem dúvida, de cavar o monte de esterco com as próprias unhas. Fora-me exigido um grande, um penoso esforço, e uma vontade de homem». Se há isso que é «uma vontade de homem, eu tenho-a. No mais, é tudo igual, incluindo o cavar o esterco com as unhas.
A casa fronteira
Querendo lê-la, livro a livro, em todos os livros, estou com a Estátua de Sal, o seu terceiro volume em prosa. Parei no capítulo quinto: «nesse tempo eu acreditava que viviam anjos por trás das janelas sempre fechadas de uma casa fronteira à nossa». Parece ingénuo, é ingénuo, mas ao mesmo tempo preparatória deste extraordinário momento: «Se chovia, testa colada à vidraça, entrevia os olhos tristes dos anjos espiando, como eu, entre grades de cristal que iam das nuvens ao chão». Feroz de sentimentos, o que se rir da crença na casa dos anjos. Feroz de afectos, o que nunca teve na vida uma vida a que chamasse «nesse tempo». Feroz de solidão quem não teve, ao menos na infância e por uma vez, uma casa fronteira à sua, para a qual olhasse, com olhos tristes, nos dias em que chovia, as janelas sempre fechadas.
Um amor aqui ao lado
Voltei, por um momento ao livro A China Fica ao Lado, por me lembrar do papagaio de Mister Wang que se alimentava quase só de flores. Era na Pousada da Amizade, em Macau. Mister Wang, o homem «de olhos antigos e cansados», o empregado da biblioteca chinesa, que se descobriu dormia secretamente com Miss Jane, magrinha, feia e professora da escola infantil, um «amor jovem, exacto, e inesperado», precisamente ali, a ranger, provocante, à distância de um tabique, num esconso quartinho do mesmo corredor.
O céu em chamas
Dizem que a Estátua de Sal é um livro biográfico da Maria Ondina Braga, quando eu vejo em todos os seus livros o mundo contado tal como ela o viveu. Estou a lê-la agora e com ela a encontrar-me em Malanje, onde nasci, e com ela a assistir, garoto, extasiado, ao fogo redentor das queimadas, sentindo no crepitar incendiário do capim seco a arder, um estranho som que «lembrava um macabro roer de ossos ressequidos». Daqui a uma horas, largada a leitura, eis-me no «mundo carregado de civilização e de sofisma». Por agora, como se num interregno de paz, leio-a, tendo os seus livros como companhia, a sua memória como um afago.
O pesadelo das mãos furadas
Maria Ondina Braga esteve em Macau depois de em Angola e Goa. O livro A China Fica ao Lado fala da sua estadia na cidade do nome de Deus, e é como se um livro de memórias soltas. Há, que eu tenha reparado, e julgo que o li agora cuidadosamente, uma única excepção com uma reminiscência africana. Vem no conto sobre A Doida, cujos pés «longos, chatos, vítreos, boiavam à flor da água como peixes mortos». A propósito das noites brancas de vigília receosa, as que traziam «sonhos angustiosos», lembra Maria Ondina que «a preta Águeda rezava uma oração ao "pesadelo de mão furadas e unhas encarnadas". Não fossem as mãos do pesadelo furadas, as mãos com que ele nos tapava a boca, e morreríamos abafados». É preciso ter sentido alguma vez na vida esse terror nocturno, genuíno e sufocante, aquele que parece esmagar-nos o coração, como se com um martelo, e nos seca a respiração, como se estoirassem os pulmões, para ter sido capaz de vêr aqui como tudo se passou. Sonâmbulo, acordado em criança a meio da noite, alagado no suor dos pavores sonhados, sei como é. Agora vi como se diz.
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