Numa folha de papel

Calhou poder estar na Biblioteca Pública de Braga. Ocorreu ter tido tempo para entrar e perguntar o que tinham da sua obra. Muito pouco. E, no entanto, paradoxo amargo, é a terra que a viu nascer, que deveria albegar, como se aninhados em maternal regaço, os seus livros, que nela são a sua vida.
Ironia, porém, a temperar o incómodo, trouxeram-me um opúsculo organizado por aquela mesma entidade, em 1988, onde vários escritores, entre os quais a Maria Ondina, falaram do seu amor às bibliotecas, àquela biblioteca, agora madrasta má para a sua obra, de que quase nada guardou para a leitura.
Voando já nas asas do desejo, copiei, apressado, a sua conferência, tirando nervosas notas numa improvisada folha de papel. Momentos depois, já na rua, eu próprio me impregnara daquele «odor erudito e vegetal». Entrei então no Café Viana, por entre as arcadas, ao encontro, eu também da remissão de um mundo de «histórias de penas, de paixões, de compungimento».

O reflexo da nudez.

Continuo a recolher, inventando para isso um tempo que já não tenho, testemunhos e documentos sobre a Maria Ondina Braga. Hoje, crivado de trabalho, almocei com alguém que a conheceu em Macau. No meio da conversa, falando sobre a sua reservada personalidade, veio ao meu consciente uma ideia que poderia dar o título a um livro: o reflexo da nudez.
Maria Ondina, através da escrita, e soube que terá deixado versos na imprensa em Macau, revela-se na sua intimidade mas não na sua nudez. Nela parece que é mais fácil falar do que os outros escondem, decotando-se discretamente, os sentidos captados através dos sentimentos.

Um livro!

Os meus amigos, os que se preocupam com a minha saúde, os que sabem quanto isto vai acrescentar esforço à já minha fatigada vida e ao culto do cumprir deveres de que faço profissão e honra, dizem-me que é insensatez.
Felizmente eu tenho poucos amigos. E ignoro os conselhos dos que me restam, empurrado pelo desejo e animado pela vontade.
Decidi-me ontem a escrever um livro sobre a Maria Ondina Braga, a juntar a tudo aquilo a que me obriguei e ao que devo.
Hoje acordei em paz comigo. Levantei-me cedo e tomei em mãos o «Passagem do Cabo», um dos seus livros auto-biográficos e nele encontrei a frase «isto de contar a vida é sempre mais triste do que vivê-la». Está aqui a explicação íntima, a de fazer próprias as dores alheias, juntando-as às já sentidas.

O que mais vivi

Graças à amabilidade da Fátima Galvão do Instituto Cultural de Macau, consegui reunir alguns recortes de imprensa sobre Maria Ondina Braga. Os últimos chegaram esta madrugada, seriam quase quatro da manhã em Portugal, eu à espera deles, ansioso. Um deles é uma entrevista dada a Maria Teresa Horta e publicada em 1992 no «Diário de Notícias». Nela a autora de «Estátua de Sal» fala nos vinte cinco anos de escrita literária. Surpreende uma resposta sua sobre esse tempo de dor: «Foi o mais importante sim. O que mais vivi».
Uma frase destas resume uma vida, e explica tudo o mais. Os contemporâneos de uma tal alma deveriam sentir-se envergonhados, como quando ante um suicida, sentem que foram eles, afinal, os homicidas.

O esbanjamento

No seu primeiro livro em prosa, uma crónica de viagens, editado em 1965 pela Agência Geral do Ultramar, há, como os editores gostam de fazer nestas coisas, uma badana lateral na capa, com um apontamento biográfico da autora. Esta manhã de domingo, com pouquíssimas horas de descanso, já a fugir ao calor e à procura de um momento de tranquilidade, reparei nisso por acaso num folhear sem nexo e uma estranha sensação angustiosa tomou conta do meu intranquilo ser, ao ler: «Professora do ensino secundário em Angola e depois em Goa onde assitiu à invasaão indiana. Durante dois anos exerceu o ensino particular em Macau». É que nestas linhas está o princípio e o fim da sua biografia aparente, a notada pelos que vêm os corpos humanos na sua viagem por esta terra. Falta dizer que regressou à sua terra Natal, onde viria a morrer. Assim se resume a iamgem de uma vida. Não fosse a vasta, sentida e infinitamente bela obra literária que nos deixou e estaria morta já nesse momento de se anunciar aos seus leitores. O livro chama-se «Eu vim para ver a terra». Fala de África, da Malanje onde eu nasci. «É a terra úbere até ao esbanjamento», escreveu dela, como se falasse da sua própria alma, que nos legou, discreta, meiga, esgotada na literatura, a pátria onde se encontram, em fraternal cadeia de união de sentimentos, os verdadeiros amigos, os mais sentidos amores.

Uma vida

Se tiver tempo de vida e saúde que me sobre ainda escreverei a biografia desta mulher cuja escrita está condenada ao vil esquecimento, como se ao extremo sentir se seguisse o inútil do sentimento. Senti isso ao passar por Braga, por causa desta grilheta a que estou aprisionado por causa de ter uma profissão ironicamente chamada liberal.
Eu sei que a Câmara Municipal de Braga atribui um prémio a quem escrever. Mas mesmo que assim não fosse, mesmo sem receber o prémio, só mesmo pela consolação que é a de a trazer de volta ao mundo dos que ainda vivem.

Qualquer coisa

A Maria Ondina Braga escreveu em 1978 um livro lamentável, horrível de vulgar, que chega a doer de tão disforme face à sua escrita maravilhosa. É um diário, doméstico, profissional, social, de uma jornalista, talvez escritor e do Raúl, que faz de seu marido, e da Vânia e do Alexandre e da emancipação libertadora, e nem sei de que mais.
Sei lá porquê, fui deliberadamente buscá-lo para sofrer ao lê-lo, na banalidade de algumas páginas.
«Qualquer coisa que não a vida!», cita-o, ao Fernando Pessoa, neste seu verso de agonia. Sim, qualquer coisa mesmo.

Mulheres escritoras

Hoje é o dia da mulher. Num livro que dedicou à biografia de algumas mulheres escritoras, Maria Ondina Braga diz que escreveu o livro dedicando-o a essas suas companheiras de tantas horas de solidão, uma delas a Irene Lisboa, de quem lembra o «tudo é dos outros e me foi sempre negado», como o mote que lhe resumiria a história de uma vida. Assinando com o nome masculino de João Falco, por mais facilmente vingarem em 1939 homens na escrita, a autora de «Contarelos» escreveu um livro que até por se chamar «Começa uma vida», e por ser o mundo de orfandade, de colégio interno, de clausura, de recolhimento e em suma de uma comovente fome de ser amada é o seu mundo interior transposto em literatura. «Das vidas caseiras ninguém faz romances», confessou-se num momento de verdade, como se a dizer-nos porque se decidiu a fazê-los. No final da sua vida, morava num quarto andar, na Rua de São Bernardo, junto ao jardim da Estrela, envenenando-se no seu fatal isolamento. Espera por nós no cemitério dos Prazeres desde 1985.

A escrita rendilhada

Outro dia, ao ter de falar dela, creio que lhe referi a escrita «rendilhada». Hoje já ninguém sabe o que isso é, fio a fio, a agulha de ponta romba, os olhos a mirrarem-se, de laçada em laçada. Quando eu era miúdo, havia pela casa toalhas de fartas mesa, naperons para frágeis bibelots, colchas para púdicas camas, guardanapos mesmo para bocas limpas, que eram vidas perdidas a dedilhar, os dedos moídos, as costas cansadas, o candeeiro em quebra-luz ao entardecer. O supremo refinamento era descobrir nesses labirintos de Ariana, o direito do avesso. Hoje, o mofo, a traça, o esquecimento, tornou tudo isso um tempo de inutilidade desfiada.

O exame celestial

Guardiões da panaceia espiritual, desconfiados ante as maleitas que não enxergam, mestres da medicina metafísia, os chineses. Há que curar primeiro o espírito, logo se cura o corpo, uma só doença, uma única cura. Talvez por isso o nome em mandarim para electroencefalograma se aproxime da ideia de exame celestial. Tudo faz sentido, tudo se une onde tudo se separa: os nervos, todos eles, dão um nó no coração. Eis, pois, Maria Ondina Braga, professora na secção de português no Instituto de Línguas Estrangeiras. Ali chegou no Ano do Cão, em 1982. Disse-o no no seu livro «Angústia em Pequim».

O Natal Chinês

Há no conto O Natal Chinês de Maria Ondina Braga aquele instante em que a filha da senhora Tung asseverava que «o menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa na gaveta». O Menino Jesus vestia ricamente cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto; a deusa, da fecundidade estava nua. Ambos de feições chinesas. Ele filho milagroso de uma maternidade virgem, ela atraía a doce vontade carnal do homem à sua companheira, como o Céu alagando a Terra na estação própria. Talvez daí a tristeza do Menino de Jesus, a ânsia de ter mãe, o desejo de ter sido gerado da substância física de um acto de amor.

Os reguladores do interesse

Irene Lisboa viveu a sua solidão num quarto na Rua de São Bernardo, em Lisboa. Num livro dedicado a algumas «Mulheres Escritoras», Maria Ondina Braga, da mesma família dos desesperados, párias dos afectos, cita-a, lembrando-a nos dois ou três homens que a beijaram, a desejaram passageiramente, «vários, inconstantes, elegantes, estetas, e simultâneamente práticos, reguladores do interesse».

Passagem do Cabo

Maria Ondina Braga esteve em Malanje na mesma altura em que, miúdo, por ali andava, filho de solicitador. Quando a guerra começou, e com ela o cortejo de atrocidades e de rancores incendiados, estávam ambos presentes, ignorando-nos, e sem que a vida nos desse sequer a oportunidade do aproximar. Hoje, um sábado frio, ela morta, eu ainda por aqui, leio-a, folheando-o, como se na ânsia de a encontrar, um dos seus livros. ei-la, enfim, num passeio ao Lombe, com as professores do Colégio das Madres, o mesmo onde ensinou português. Entusiasmada, ela que nascia viva em cada ser, a falar da terra meditativa e úbere, extática e exuberante, das galinhas de Angola, do céu cravejado de estrelas, a estrada povoada de buracos enlameados. Como tudo isso me faz sentir só! Apátrida, filho de uma terra de que não me reconheço, acampado na vida, com os que me restam do álbum desbotado de uma família que desabou, leio-a para me reconhecer: «meu destino é passar».

Uma vida só

Creio que não cometo uma inconfidência ao revelar que a Isabel Mendes Ferreira, a que conhecemos, entrevistou a Maria Ondina Braga. E teve a sensibilidade de descortinar na sua escrita «um discurso claro, doce, misterioso, algo panteísta, onde o lugar das pessoas vem primeiro que a ordem ds coisas». Quantas vezes me revejo, ao lê-la, nessa sua escrita singular, naquele modo de se viver só, ainda que não sozinho.

A planície despovoada

A obra chama-se A filha do juramento, por sinal um dos contos que menos marca quem o lê. Divide-se em três livros, cada um com seu tom, em sua cor. Ilustrações de Helena Santos. Orgulhoso na sua simplicidade, exibe que foi um patrocínio da Imobiliária Teixeira & Filhos, Limitada. É de Ondina Braga, «uma mulher simples que trabalha de noite, bebe chá, e come ervas cozidas como os monges taoistas», que de si fala como «a planície despovoada do meu desprendimento»

Rezar e pecar

Para comemorar os trinta anos de vida literária de Maria Ondina Braga editou-se em 1995 um livro de contos. Um deles chama-se «Sete Palavras» e nele encontro este momento por acaso a propósito de Braga, a sua terra natal e que se lhe incrustrou como nome no próprio nome: «eu quase apostava que podem lá os homens rezar e pecar a um tempo que tudo lhes será perdoado. Nem que não rezem». Leio-a e vejo agora que estou a escrever o que vem no pórtico desta obrinha quase terminal, de uma das líricas de Camões: «que dias há que na alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem em não sei como, e dói não sei porquê». Eu diria agora, como ela, «a um tempo».

O recolhimento da noite

Há quanto tempo eu não a visitava. Mas é assim. Animal acossado, refugio na mata do isolamento, a vergonha das dores sofridas, prisioneiro de uma vivacidade que me é alheia. Procurei-a hoje, ao chegar a casa, precisamente no seu primeiro livro, como se numa oração vespertina, antes do recolhimento da noite. E li-a: «uma impressão de velhice e cansaço extremos, ao lado de um esforçado, inquebrantável desejo de viver, marcava o quadro da absurdidade». É Maria Ondina, no «Eu vim para ver a terra».

Renascer

Um amigo meu descobriu em Macau, numa biblioteca, alguns títulos da Maria Ondina Braga que eu não consigo reconhecer de entre os que tenho na minha livraria, onde julgava ter já tudo o que ela publicou em prosa. Imagine-se o alvoroço de imaginar em alguém mais vida do que a que sonhamos ter conhecido. Espero apenas que «Debaixo de uma redoma», «Chá de jasmim», «A casa suspensa», «A despedida», «A língua», «A professora de piano», «A despedida» não sejam textos de livros que eu já li. Se o forem, viverei o já vivido como se o vivesse de novo, o que é uma forma de renascer.

A sombra dos dias

Estar-se à mercê do destino, de um gesto alheio, doer-nos a sua ausência. Sofrer-se a incompreensão silenciosa ou o desprezo ruidoso. Tornar-se ridículo carpir, encerrar-se a dignidade no interior austero de cada um. Concebido desnaturadamente «tal a primeira mulher do mundo, segundo Confúcio concebera da própria sombra». É assim em Maria Ondina Braga, no conto O Filho do Sol: «a Deusa da Ansiedade velava pelo seu fado, porque nenhum deus sabia o seu horóscopo».

Indiferente e sôfrega

Os Rostos de Jano é na obra de Maria Ondina Braga uma excelência de sensualidade e em certos momentos de erotismo. Literatura de recolhimento interior, a sua, parece confinar-se a sentimentos tristonhos de ausência´carnal, sem que um afago, uma volúpia, um halo de desejo pareça ferir-lhe as noites ou iluminar-lhe os dias. E, no entanto, há nesta narrativa, escrita em 1973, sempre o interior de piedade pela sua condição de solitária. «Um filósofo chinês disse que o sentimento da comiseração é o começo do amor», escreveu. Haverá quem leia isto e se revolte, pragmática e racional, como isto tivesse sido escrito por «homens que haviam nascido agachados e a quem só alguma, rara mulher, restituiria a altura. Mulher que os aceitasse sem paixão por piedade». Há quem leia isto e compreenda que está aqui o retrato negativo do que resta, num mundo povoado de naufrágios. Uma vida já indiferente, sôfrega e ansiosa.