Só esta manhã dei conta, com aquela sensação de já ter lido algures. «Ficcionalmente, Maria Ondina Braga (1932-2003) evocou este colégio no seu conto Casa de Regeneração, publicado no livro Amor e Morte (1970; posteriormente, os contos deste volume foram refundidos e aumentados, surgindo num novo livro com o título O Homem da Ilha [1982])». Escreve-se no Blog da Rua Nove. Depois fui ver e, afinal, já tinha visto e já tinha citado e já não me lembrava senão tenuamente.
O Homem da Ilha
Só esta manhã dei conta, com aquela sensação de já ter lido algures. «Ficcionalmente, Maria Ondina Braga (1932-2003) evocou este colégio no seu conto Casa de Regeneração, publicado no livro Amor e Morte (1970; posteriormente, os contos deste volume foram refundidos e aumentados, surgindo num novo livro com o título O Homem da Ilha [1982])». Escreve-se no Blog da Rua Nove. Depois fui ver e, afinal, já tinha visto e já tinha citado e já não me lembrava senão tenuamente.
A falência do amor
O livro é uma pequena narrativa sobre o difícil amor a João e a impossibilidade do amor de Álvaro. A história de Francisca Teresa, a sua vida, o morar confinada: «esta casa um navio à deriva, a termiteira o beque da proa, cada um de nós um náufrago». É uma carta para Isa. «Isa: nas famílias há geralmente anéis que passam de geração para geração, ou certas feições, ou, digamos, uma vocação artistica. E doenças, esquisitices, tendências, por exemplo, para a hipocondria, o suicídio. Na nossa é a falência do amor». O livro, o pequeno livro, chama-se A Casa Suspensa. Foi editado em 1982. É uma história de muitas histórias, comoventes, naufragadas, condensadas em instantâneos de eternidade: «Há séculos não chorava! Que, ao fim e ao cabo, o meu desafio tem sido a compaixão pública».
O caminho da purificação
«Maria Ondina percorreu por seu pé, passo a passo, um caminho difícil, porém, o caminho certo: o da purificação, sua e nossa, porque a literatura é um valor supraindividual, verdadeira constituição intemporal da consciência humana, que não pode ser derrogada por qualquer agitação mercantilista, nem subvertida pelas leis do mais bárbaro economicismo. Purificação é o caminho que nos leva até à fundação da cidade e será o caminho que nos trará à nova cidade e é o caminho onde sempre encontraremos aquela que foi a personificação da serenidade». Escreveu Fernando Pinheiro. Leia o resto aqui.
O claustro sem ninguém
Devo à amabilidade de uma leitora, Helena Laranjeiro - que me perdoe se a embaraço, citando-lhe o nome - o ter-me lembrado estas duas obras da Maria Ondina: Quando o claustro é sem ninguém. Braga, Fundação Bracara Augusta, 2000, textos sobre Braga retirados de Estátua de Sal e Contos de riso e siso. Braga, Autores de Braga, 2000, em co-autoria com Luís da Silva Pereira e Maria Adelina Vieira.
Tinha lido o segundo livro na Biblioteca Pública de Braga, quando visitei a cidade. O dia terminou no Café Viana. «É o das Arcadas», disse-me a minha interlocutora que não mais vi. Ficou-me então o claustro sem ninguém.
O caminho da perdição

«Em 1904 o Colégio contava com 130 asiladas, das quais quarenta e nove se empregavam nos serviços de costura, malha e bordados, vinte e quatro nos serviços de engomadoria e trinta e cinco nos serviços de tecelagem. Ficcionalmente, Maria Ondina Braga (1932-2003) evocou este colégio no seu conto "Casa de Regeneração", publicado no livro Amor e Morte (1970; posteriormente, os contos deste volume foram refundidos e aumentados, surgindo num novo livro com o título O Homem da Ilha [1982])». Está aqui no Blog da Rua Nove. É um texto sobre o Colégio da Regeneração, em Braga, «um espaço de eleição para muitas famílias do norte de Portugal encomendarem os seus trabalhos em linho, lã, ou algodão».
«O fim do Collegio é retrahir do caminho de perdição e rehabilitar religiosa e civilmente as pessoas do sexo feminino extraviadas e sem meios de subsistencia».
Casa de asilo, lugar de exílio, o extravio e a falta de meios de susbsistência, a perdição de quem da vida se perde, um espaço de eleição, uma central de encomendas. «Vários enxovais se iniciaram com lençóis, colchas, toalhas de mesa e toalhas de rosto aí manufacturadas e muitas obras dos teares desta instituição têm sido carinhosamente conservadas ao longo de várias gerações como exemplo de trabalhos executados com perfeição».
Uma rua de cimento
Graças à mão amiga da Júlia Coutinho, chegaram-me recortes de entrevistas a Maria Ondina Braga. São textos de uma vida dorida, cercada pela carência de afectos, de meios, de uma carícia de reconhecimento. «Escrever foi única coisa que encontrei na vida», disse ela, num desses momentos. Viveu de traduções, ganhou com isso um magro pão. «Como escrevo pela noite fora sempre poupo uma refeição. Não preciso de muita coisa para viver, já quase não se vive como eu vivo», disse numa entrevista a Maria Antónia Fiadeiro, publicada em 1982.Agora, porque está morta, começam a surgir as homenagens: um prémio literário com o seu nome, mas só para os que nasceram em Braga ou morarem em Braga! Uma rua com o seu nome uma «rua de horríveis caixotes de cimento», como se diz aqui, falando, com tristeza da sua expiação.
Salão Cleópatra
Ainda consegui ler, porque estou a estudá-los, um dos magníficos contos, no caso A Trança, que a Maria Ondina publicou em 1975 no livro A Revolta das Palavras. A cena passa-se em terras africanas, como o leitor se apercebe pela menção aos «operários indígenas que trabalham no calcetamento», pela referência à «noite de África», essa recorrência vivencial na sua escrita dos tempos de Angola.
A cena é um instantâneo «em prédio de esquina moderno com varandas de cimento oblongas como grandes banheiras», num vulgar cabeleireiro, o «Salão Cleópatra», onde «de cabeças coroadas de bigoudis, as senhoras lembravam bonecas enormes em exposição». Uma delas terminará com um «corte a trança», e ela Maria Ondina que a usava, «que de tão preta parecia azul».
A cena é um instantâneo «em prédio de esquina moderno com varandas de cimento oblongas como grandes banheiras», num vulgar cabeleireiro, o «Salão Cleópatra», onde «de cabeças coroadas de bigoudis, as senhoras lembravam bonecas enormes em exposição». Uma delas terminará com um «corte a trança», e ela Maria Ondina que a usava, «que de tão preta parecia azul».
Li, sublinhando, entrando na interioridade do conto, no sentido modo de o contar.
Há na escrita de Maria Ondina Braga uma constante espiritualidade sensualizada, o extâse e o clímax num acto só. «A cabeleira desprendia-se, pesada, ia-lhe vestindo ombros e ancas, e, ao longo dela, as mãos do homem, muito brancas, lembravam borboletas adejando no capim do sol, estonteadas, sem saber onde pousar», escreve táctil e sensitiva.
Escrita de contida alma e vulcânico corpo, há nela momentos de terno enamoramento, como quando, as mãos ágeis, as palavras gentis de que o ruborizar-se explicavam o sentido, o cabeleireiro, a face de Apolo compenetrada, não se conteve: «como sou pouco para este cabelo, madame!». Como pode exprimir-se melhor o amor?
5 anos

Hoje, sexta-feira, dia 14, perfazem cinco anos que faleceu Maria Ondina Braga. Tinha-lhe escrito uma carta à qual já não deu resposta, demasiado doente para o fazer. Na altura doeu-me o silêncio, sem saber que mais me doeria ainda o saber que nunca teria resposta. Ontem estive num alfarrabista que ainda a conheceu: «uma pessoa modestíssima», disse-me, «uma grande mulher», acrescentou.
O meu sentir

O blog Caligrafias recorda um livro de Maria Ondina Braga, hoje desaparecido: O Meu Sentir. «É o primeiro livro de versos de Maria Ondina (Braga) e, diga-se, é o primeiro livro impresso da Autora. Publicada em Braga, esta colectânea poética, saída das Oficinas Gráficas da Livraria Cruz», esclarece Martim de Gouveia e Sousa, de Viseu, a cidade onde fiz o meu Liceu. Obrigado, pela Maria Ondina, pela recordação do tempo em que era novo numa cidade velha, por ter trazido ao mundo dos poucos esta escrita de excepção.
Numa folha de papel
Calhou poder estar na Biblioteca Pública de Braga. Ocorreu ter tido tempo para entrar e perguntar o que tinham da sua obra. Muito pouco. E, no entanto, paradoxo amargo, é a terra que a viu nascer, que deveria albegar, como se aninhados em maternal regaço, os seus livros, que nela são a sua vida.
Ironia, porém, a temperar o incómodo, trouxeram-me um opúsculo organizado por aquela mesma entidade, em 1988, onde vários escritores, entre os quais a Maria Ondina, falaram do seu amor às bibliotecas, àquela biblioteca, agora madrasta má para a sua obra, de que quase nada guardou para a leitura.
Voando já nas asas do desejo, copiei, apressado, a sua conferência, tirando nervosas notas numa improvisada folha de papel. Momentos depois, já na rua, eu próprio me impregnara daquele «odor erudito e vegetal». Entrei então no Café Viana, por entre as arcadas, ao encontro, eu também da remissão de um mundo de «histórias de penas, de paixões, de compungimento».
O reflexo da nudez.
Continuo a recolher, inventando para isso um tempo que já não tenho, testemunhos e documentos sobre a Maria Ondina Braga. Hoje, crivado de trabalho, almocei com alguém que a conheceu em Macau. No meio da conversa, falando sobre a sua reservada personalidade, veio ao meu consciente uma ideia que poderia dar o título a um livro: o reflexo da nudez.
Maria Ondina, através da escrita, e soube que terá deixado versos na imprensa em Macau, revela-se na sua intimidade mas não na sua nudez. Nela parece que é mais fácil falar do que os outros escondem, decotando-se discretamente, os sentidos captados através dos sentimentos.
Um livro!
Os meus amigos, os que se preocupam com a minha saúde, os que sabem quanto isto vai acrescentar esforço à já minha fatigada vida e ao culto do cumprir deveres de que faço profissão e honra, dizem-me que é insensatez.
Felizmente eu tenho poucos amigos. E ignoro os conselhos dos que me restam, empurrado pelo desejo e animado pela vontade.
Decidi-me ontem a escrever um livro sobre a Maria Ondina Braga, a juntar a tudo aquilo a que me obriguei e ao que devo.
Hoje acordei em paz comigo. Levantei-me cedo e tomei em mãos o «Passagem do Cabo», um dos seus livros auto-biográficos e nele encontrei a frase «isto de contar a vida é sempre mais triste do que vivê-la». Está aqui a explicação íntima, a de fazer próprias as dores alheias, juntando-as às já sentidas.
O que mais vivi
Graças à amabilidade da Fátima Galvão do Instituto Cultural de Macau, consegui reunir alguns recortes de imprensa sobre Maria Ondina Braga. Os últimos chegaram esta madrugada, seriam quase quatro da manhã em Portugal, eu à espera deles, ansioso. Um deles é uma entrevista dada a Maria Teresa Horta e publicada em 1992 no «Diário de Notícias». Nela a autora de «Estátua de Sal» fala nos vinte cinco anos de escrita literária. Surpreende uma resposta sua sobre esse tempo de dor: «Foi o mais importante sim. O que mais vivi».
Uma frase destas resume uma vida, e explica tudo o mais. Os contemporâneos de uma tal alma deveriam sentir-se envergonhados, como quando ante um suicida, sentem que foram eles, afinal, os homicidas.
O esbanjamento
No seu primeiro livro em prosa, uma crónica de viagens, editado em 1965 pela Agência Geral do Ultramar, há, como os editores gostam de fazer nestas coisas, uma badana lateral na capa, com um apontamento biográfico da autora. Esta manhã de domingo, com pouquíssimas horas de descanso, já a fugir ao calor e à procura de um momento de tranquilidade, reparei nisso por acaso num folhear sem nexo e uma estranha sensação angustiosa tomou conta do meu intranquilo ser, ao ler: «Professora do ensino secundário em Angola e depois em Goa onde assitiu à invasaão indiana. Durante dois anos exerceu o ensino particular em Macau». É que nestas linhas está o princípio e o fim da sua biografia aparente, a notada pelos que vêm os corpos humanos na sua viagem por esta terra. Falta dizer que regressou à sua terra Natal, onde viria a morrer. Assim se resume a iamgem de uma vida. Não fosse a vasta, sentida e infinitamente bela obra literária que nos deixou e estaria morta já nesse momento de se anunciar aos seus leitores. O livro chama-se «Eu vim para ver a terra». Fala de África, da Malanje onde eu nasci. «É a terra úbere até ao esbanjamento», escreveu dela, como se falasse da sua própria alma, que nos legou, discreta, meiga, esgotada na literatura, a pátria onde se encontram, em fraternal cadeia de união de sentimentos, os verdadeiros amigos, os mais sentidos amores.
Uma vida
Se tiver tempo de vida e saúde que me sobre ainda escreverei a biografia desta mulher cuja escrita está condenada ao vil esquecimento, como se ao extremo sentir se seguisse o inútil do sentimento. Senti isso ao passar por Braga, por causa desta grilheta a que estou aprisionado por causa de ter uma profissão ironicamente chamada liberal.
Eu sei que a Câmara Municipal de Braga atribui um prémio a quem escrever. Mas mesmo que assim não fosse, mesmo sem receber o prémio, só mesmo pela consolação que é a de a trazer de volta ao mundo dos que ainda vivem.
Qualquer coisa
A Maria Ondina Braga escreveu em 1978 um livro lamentável, horrível de vulgar, que chega a doer de tão disforme face à sua escrita maravilhosa. É um diário, doméstico, profissional, social, de uma jornalista, talvez escritor e do Raúl, que faz de seu marido, e da Vânia e do Alexandre e da emancipação libertadora, e nem sei de que mais.
Sei lá porquê, fui deliberadamente buscá-lo para sofrer ao lê-lo, na banalidade de algumas páginas.
«Qualquer coisa que não a vida!», cita-o, ao Fernando Pessoa, neste seu verso de agonia. Sim, qualquer coisa mesmo.
Mulheres escritoras
Hoje é o dia da mulher. Num livro que dedicou à biografia de algumas mulheres escritoras, Maria Ondina Braga diz que escreveu o livro dedicando-o a essas suas companheiras de tantas horas de solidão, uma delas a Irene Lisboa, de quem lembra o «tudo é dos outros e me foi sempre negado», como o mote que lhe resumiria a história de uma vida. Assinando com o nome masculino de João Falco, por mais facilmente vingarem em 1939 homens na escrita, a autora de «Contarelos» escreveu um livro que até por se chamar «Começa uma vida», e por ser o mundo de orfandade, de colégio interno, de clausura, de recolhimento e em suma de uma comovente fome de ser amada é o seu mundo interior transposto em literatura. «Das vidas caseiras ninguém faz romances», confessou-se num momento de verdade, como se a dizer-nos porque se decidiu a fazê-los. No final da sua vida, morava num quarto andar, na Rua de São Bernardo, junto ao jardim da Estrela, envenenando-se no seu fatal isolamento. Espera por nós no cemitério dos Prazeres desde 1985.
A escrita rendilhada
Outro dia, ao ter de falar dela, creio que lhe referi a escrita «rendilhada». Hoje já ninguém sabe o que isso é, fio a fio, a agulha de ponta romba, os olhos a mirrarem-se, de laçada em laçada. Quando eu era miúdo, havia pela casa toalhas de fartas mesa, naperons para frágeis bibelots, colchas para púdicas camas, guardanapos mesmo para bocas limpas, que eram vidas perdidas a dedilhar, os dedos moídos, as costas cansadas, o candeeiro em quebra-luz ao entardecer. O supremo refinamento era descobrir nesses labirintos de Ariana, o direito do avesso. Hoje, o mofo, a traça, o esquecimento, tornou tudo isso um tempo de inutilidade desfiada.
O exame celestial
Guardiões da panaceia espiritual, desconfiados ante as maleitas que não enxergam, mestres da medicina metafísia, os chineses. Há que curar primeiro o espírito, logo se cura o corpo, uma só doença, uma única cura. Talvez por isso o nome em mandarim para electroencefalograma se aproxime da ideia de exame celestial. Tudo faz sentido, tudo se une onde tudo se separa: os nervos, todos eles, dão um nó no coração. Eis, pois, Maria Ondina Braga, professora na secção de português no Instituto de Línguas Estrangeiras. Ali chegou no Ano do Cão, em 1982. Disse-o no no seu livro «Angústia em Pequim».
O Natal Chinês
Há no conto O Natal Chinês de Maria Ondina Braga aquele instante em que a filha da senhora Tung asseverava que «o menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa na gaveta». O Menino Jesus vestia ricamente cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto; a deusa, da fecundidade estava nua. Ambos de feições chinesas. Ele filho milagroso de uma maternidade virgem, ela atraía a doce vontade carnal do homem à sua companheira, como o Céu alagando a Terra na estação própria. Talvez daí a tristeza do Menino de Jesus, a ânsia de ter mãe, o desejo de ter sido gerado da substância física de um acto de amor.
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