Porque não desfrutar o livro pela sua capa? Descobri que isso era possível aqui. Angústia em Pequim é o relato de uma vivência. Expatriada como leitora de português, Maria Ondina vê acentuar-se o caminho de uma depressão que não mais a deixará. É uma história de infância, que o passar dos anos vai refinando. A arte não foi uma cura, sim um sintoma.
A Arte da Fuga
Conheceu-a e trabalhou com ela para redigir a sua tese de mestrado. Visitou-a na sua «casa-barco» pejada de recordações. Encontrei-lhe o livro. Graciosamente na net, gratuito, disponível.
A autora chama-se Maria Manuela da Mota Vale Braga de Oliveira. O seu livro tem um nome académico, oriundo da sua natureza: A Arte da "Fuga" em Maria Ondina Braga ou o Feminino em "Contraponto. Foi dado por findo em 1995. Está aqui.
Natal Chinês
«Mas tu, de olhinhos estreitos,
Jesus Menino dos chins,
Tu que recebes respeitos
De culis e mandarins».
Encontrei-o aqui. É um poema seu sobre o Natal na China, espécie de angústia em Pequim.
Jesus Menino dos chins,
Tu que recebes respeitos
De culis e mandarins».
Encontrei-o aqui. É um poema seu sobre o Natal na China, espécie de angústia em Pequim.
A automotora
«Parti na automotora das 8 e 30 da manhã. Comigo dezoito das internas, minhas alunas, rumo às suas casas no mesmo gozo de férias. Seguíamos juntas na automotora, com a diferença de eu vir, como as pessoas mais pacatas, sentadas no meu lugar, e elas na plataforma cantando e conversando com o revisor». É Maria Ondina, fazendo em Angola o caminho de Luanda à então chamada Vila Salazar. Claro que a automotora não é esta. Esta é minha.
P. S. O livro chama-se Eu Vim para Ver a Terra. A sua primeira obra em prosa.
Rara e magnífica
São raras, diz meu amigo Ernane Catroli e a ele devo esta fotografia. Raras e por isso magníficas, respondo-lhe, agradecendo e aqui fica, para todos: Maria Ondina Braga, nascida em Braga. Rara e magnífica pessoa.
Um mundo cão
«Aterrei em Pequim no Ano do Cão de 1982: um pobre rafeiro malhado de castanho e branco, cabisbaixo, olhos presos a uma carocha que se esgueira pela secura do chão. A saudade de avistar um cão, um gato, em Pequim! Nos bairros urbanos, o alti-falante a avisar de multas para quem tiver, cães, gatos criação. Daí os jovens pequineses nunca terem visto cães, e os que já os viram sentirem por eles nojo, se não medo». Chama-se Bichos esta crónica que Ondina Braga arquivou no seu livro Angústia em Pequim. Tenho-o na edição primitiva da Ulmeiro, de 1984 e na das Edições Rolim, de 1988, esta com o carimbo de verificação da tiragem, a anunciar um mundo de suspeitas, de aproveitamento, de autores a terem de se defender do mercado editorial e suas ordinarices. Um mundo cão.
Vidas vencidas
Vencer é uma palavra estranha na língua portuguesa porque significa derrotar mas significa ultrapassar. Livro biográfico, Vidas Vencidas, é um tule através do qual se pressente o mundo interior de transparências veladas, de intimidades contidas, doméstico, o que foi, afinal, a sua vida. «Quando é que a maior das paixões alguma vez compensou o menor dos ideais?», pergunta na página 13. Eis a sua biografia, de renúncia e de fantasia, idealizando a realidade. Um mundo de biombos e de sombras chinesas.
Prémio Maria Ondina
Maria Araújo da Silva, com um trabalho assinado sob o pseudónimo de Maria Lucas, é a vencedora do “Prémio Maria Ondina Braga” promovido pelo Município de Braga para «honrar a memória» da escritora bracarense. “Maria Ondina Braga - A Viagem em Demanda de Identidade” obteve a apreciação unânime do júri convidado pelo Pelouro Municipal da Cultura.
O prémio visa premiar escritores naturais de Braga ou em Braga residentes.
No trabalho vencedor, a autora «analisa com sagacidade temas essenciais para a compreensão da obra de Maria Ondina Braga, tais como a demanda da identidade, a abertura ao exótico e ao diferente na perseguição da alteridade, o jogo da revelação-ocultação do universo feminino e da sua dignificação e o regresso à infância».O trabalho motiva «viva recomendação» dos membros do júri à sua edição, uma vez que «constituirá um notável enriquecimento da crítica ondiniana e contribuirá para a divulgação e conhecimento a nível nacional da ilustre escritora bracarense».
No trabalho vencedor, a autora «analisa com sagacidade temas essenciais para a compreensão da obra de Maria Ondina Braga, tais como a demanda da identidade, a abertura ao exótico e ao diferente na perseguição da alteridade, o jogo da revelação-ocultação do universo feminino e da sua dignificação e o regresso à infância».O trabalho motiva «viva recomendação» dos membros do júri à sua edição, uma vez que «constituirá um notável enriquecimento da crítica ondiniana e contribuirá para a divulgação e conhecimento a nível nacional da ilustre escritora bracarense».
Vi a notícia aqui. Fiquei tão contente em ver nela citado este blog como quando o Supremo Tribunal de Justiça cita um livro meu. Fraquezas humanas, talvez.
A velha tradução
Vi esta notícia: com prefácio de Nicholas Shakespeare e usando a velha tradução de Maria Ondina Braga, a Casa das Letras reeditou um dos livros mais fascinantes da literatura inglesa, ‘O Cônsul Honorário’, de Graham Greene. Não se pode perder.Lembrei-me de uma entrevista da Maria Ondina, creio que ao JL, em que ela se queixava amargamente das costas doridas depois de horas à máquina a trabalhar em traduções e na escrita e como era mal paga e como por vezes não lhe pagavam. A vida desta mulher e a sua pobreza são uma ofensa ao mercantilismo editorial, à exploração, à pouca vergonha. Dedicada às letras, viu-se na contingência de ter de suportar uma vida de modéstia. Não porque não tivesse público, mas apesar de o ter. Referiu na entrevista inesquecível que apenas de uma editora recebeu escrupulosamente. Notável!
Quartos desabitados
Este fim de tarde deu-me para andar pelos quartos desabitados destes meus blogs. O da Maria Ondina Braga é um exemplo. «Filhos gerados sem paixão nasciam mortos», escreveu ela na novela A Visita, publicado em 1973 no livro Os Rostos de Jano. Este espaço que lhe destinei, pelo contrário, nasceu de uma profunda paixão pela sua escrita. Praticamente esquecida, por muitos desconsiderada, Maria Ondina é um exemplo de uma escrita no feminino excepcional pela sensibilidade, pela densidade dos sentimentos, pela agudeza da observação humana. Reclusa no seu universo pessoal, está ali contida, num interior existencial, a totalidade da essência do mundo que vale a pena ser vivido. Transmuta a carne em alma, toda a Natureza na Pessoa pela alquimia da literatura. Penaliza-me a sua ausência.O Homem da Ilha
Só esta manhã dei conta, com aquela sensação de já ter lido algures. «Ficcionalmente, Maria Ondina Braga (1932-2003) evocou este colégio no seu conto Casa de Regeneração, publicado no livro Amor e Morte (1970; posteriormente, os contos deste volume foram refundidos e aumentados, surgindo num novo livro com o título O Homem da Ilha [1982])». Escreve-se no Blog da Rua Nove. Depois fui ver e, afinal, já tinha visto e já tinha citado e já não me lembrava senão tenuamente.
A falência do amor
O livro é uma pequena narrativa sobre o difícil amor a João e a impossibilidade do amor de Álvaro. A história de Francisca Teresa, a sua vida, o morar confinada: «esta casa um navio à deriva, a termiteira o beque da proa, cada um de nós um náufrago». É uma carta para Isa. «Isa: nas famílias há geralmente anéis que passam de geração para geração, ou certas feições, ou, digamos, uma vocação artistica. E doenças, esquisitices, tendências, por exemplo, para a hipocondria, o suicídio. Na nossa é a falência do amor». O livro, o pequeno livro, chama-se A Casa Suspensa. Foi editado em 1982. É uma história de muitas histórias, comoventes, naufragadas, condensadas em instantâneos de eternidade: «Há séculos não chorava! Que, ao fim e ao cabo, o meu desafio tem sido a compaixão pública».
O caminho da purificação
«Maria Ondina percorreu por seu pé, passo a passo, um caminho difícil, porém, o caminho certo: o da purificação, sua e nossa, porque a literatura é um valor supraindividual, verdadeira constituição intemporal da consciência humana, que não pode ser derrogada por qualquer agitação mercantilista, nem subvertida pelas leis do mais bárbaro economicismo. Purificação é o caminho que nos leva até à fundação da cidade e será o caminho que nos trará à nova cidade e é o caminho onde sempre encontraremos aquela que foi a personificação da serenidade». Escreveu Fernando Pinheiro. Leia o resto aqui.
O claustro sem ninguém
Devo à amabilidade de uma leitora, Helena Laranjeiro - que me perdoe se a embaraço, citando-lhe o nome - o ter-me lembrado estas duas obras da Maria Ondina: Quando o claustro é sem ninguém. Braga, Fundação Bracara Augusta, 2000, textos sobre Braga retirados de Estátua de Sal e Contos de riso e siso. Braga, Autores de Braga, 2000, em co-autoria com Luís da Silva Pereira e Maria Adelina Vieira.
Tinha lido o segundo livro na Biblioteca Pública de Braga, quando visitei a cidade. O dia terminou no Café Viana. «É o das Arcadas», disse-me a minha interlocutora que não mais vi. Ficou-me então o claustro sem ninguém.
O caminho da perdição

«Em 1904 o Colégio contava com 130 asiladas, das quais quarenta e nove se empregavam nos serviços de costura, malha e bordados, vinte e quatro nos serviços de engomadoria e trinta e cinco nos serviços de tecelagem. Ficcionalmente, Maria Ondina Braga (1932-2003) evocou este colégio no seu conto "Casa de Regeneração", publicado no livro Amor e Morte (1970; posteriormente, os contos deste volume foram refundidos e aumentados, surgindo num novo livro com o título O Homem da Ilha [1982])». Está aqui no Blog da Rua Nove. É um texto sobre o Colégio da Regeneração, em Braga, «um espaço de eleição para muitas famílias do norte de Portugal encomendarem os seus trabalhos em linho, lã, ou algodão».
«O fim do Collegio é retrahir do caminho de perdição e rehabilitar religiosa e civilmente as pessoas do sexo feminino extraviadas e sem meios de subsistencia».
Casa de asilo, lugar de exílio, o extravio e a falta de meios de susbsistência, a perdição de quem da vida se perde, um espaço de eleição, uma central de encomendas. «Vários enxovais se iniciaram com lençóis, colchas, toalhas de mesa e toalhas de rosto aí manufacturadas e muitas obras dos teares desta instituição têm sido carinhosamente conservadas ao longo de várias gerações como exemplo de trabalhos executados com perfeição».
Uma rua de cimento
Graças à mão amiga da Júlia Coutinho, chegaram-me recortes de entrevistas a Maria Ondina Braga. São textos de uma vida dorida, cercada pela carência de afectos, de meios, de uma carícia de reconhecimento. «Escrever foi única coisa que encontrei na vida», disse ela, num desses momentos. Viveu de traduções, ganhou com isso um magro pão. «Como escrevo pela noite fora sempre poupo uma refeição. Não preciso de muita coisa para viver, já quase não se vive como eu vivo», disse numa entrevista a Maria Antónia Fiadeiro, publicada em 1982.Agora, porque está morta, começam a surgir as homenagens: um prémio literário com o seu nome, mas só para os que nasceram em Braga ou morarem em Braga! Uma rua com o seu nome uma «rua de horríveis caixotes de cimento», como se diz aqui, falando, com tristeza da sua expiação.
Salão Cleópatra
Ainda consegui ler, porque estou a estudá-los, um dos magníficos contos, no caso A Trança, que a Maria Ondina publicou em 1975 no livro A Revolta das Palavras. A cena passa-se em terras africanas, como o leitor se apercebe pela menção aos «operários indígenas que trabalham no calcetamento», pela referência à «noite de África», essa recorrência vivencial na sua escrita dos tempos de Angola.
A cena é um instantâneo «em prédio de esquina moderno com varandas de cimento oblongas como grandes banheiras», num vulgar cabeleireiro, o «Salão Cleópatra», onde «de cabeças coroadas de bigoudis, as senhoras lembravam bonecas enormes em exposição». Uma delas terminará com um «corte a trança», e ela Maria Ondina que a usava, «que de tão preta parecia azul».
A cena é um instantâneo «em prédio de esquina moderno com varandas de cimento oblongas como grandes banheiras», num vulgar cabeleireiro, o «Salão Cleópatra», onde «de cabeças coroadas de bigoudis, as senhoras lembravam bonecas enormes em exposição». Uma delas terminará com um «corte a trança», e ela Maria Ondina que a usava, «que de tão preta parecia azul».
Li, sublinhando, entrando na interioridade do conto, no sentido modo de o contar.
Há na escrita de Maria Ondina Braga uma constante espiritualidade sensualizada, o extâse e o clímax num acto só. «A cabeleira desprendia-se, pesada, ia-lhe vestindo ombros e ancas, e, ao longo dela, as mãos do homem, muito brancas, lembravam borboletas adejando no capim do sol, estonteadas, sem saber onde pousar», escreve táctil e sensitiva.
Escrita de contida alma e vulcânico corpo, há nela momentos de terno enamoramento, como quando, as mãos ágeis, as palavras gentis de que o ruborizar-se explicavam o sentido, o cabeleireiro, a face de Apolo compenetrada, não se conteve: «como sou pouco para este cabelo, madame!». Como pode exprimir-se melhor o amor?
5 anos

Hoje, sexta-feira, dia 14, perfazem cinco anos que faleceu Maria Ondina Braga. Tinha-lhe escrito uma carta à qual já não deu resposta, demasiado doente para o fazer. Na altura doeu-me o silêncio, sem saber que mais me doeria ainda o saber que nunca teria resposta. Ontem estive num alfarrabista que ainda a conheceu: «uma pessoa modestíssima», disse-me, «uma grande mulher», acrescentou.
O meu sentir

O blog Caligrafias recorda um livro de Maria Ondina Braga, hoje desaparecido: O Meu Sentir. «É o primeiro livro de versos de Maria Ondina (Braga) e, diga-se, é o primeiro livro impresso da Autora. Publicada em Braga, esta colectânea poética, saída das Oficinas Gráficas da Livraria Cruz», esclarece Martim de Gouveia e Sousa, de Viseu, a cidade onde fiz o meu Liceu. Obrigado, pela Maria Ondina, pela recordação do tempo em que era novo numa cidade velha, por ter trazido ao mundo dos poucos esta escrita de excepção.
Numa folha de papel
Calhou poder estar na Biblioteca Pública de Braga. Ocorreu ter tido tempo para entrar e perguntar o que tinham da sua obra. Muito pouco. E, no entanto, paradoxo amargo, é a terra que a viu nascer, que deveria albegar, como se aninhados em maternal regaço, os seus livros, que nela são a sua vida.
Ironia, porém, a temperar o incómodo, trouxeram-me um opúsculo organizado por aquela mesma entidade, em 1988, onde vários escritores, entre os quais a Maria Ondina, falaram do seu amor às bibliotecas, àquela biblioteca, agora madrasta má para a sua obra, de que quase nada guardou para a leitura.
Voando já nas asas do desejo, copiei, apressado, a sua conferência, tirando nervosas notas numa improvisada folha de papel. Momentos depois, já na rua, eu próprio me impregnara daquele «odor erudito e vegetal». Entrei então no Café Viana, por entre as arcadas, ao encontro, eu também da remissão de um mundo de «histórias de penas, de paixões, de compungimento».
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