Uma noite em Macau


Tinha visto e sentido com todas as formas de sentir a miséria, o bairro flutuante, as mulheres que, de filhos às costas, tentavam atravessar a nado o Rio das Pérolas, para, vindas da República Popular da China, tentarem encontrar comida e uma vida de pobreza que fosse e que desaguavam, mortas por exaustão e afogamento, nas costas de Macau.
E tinha visto, então ainda incipiente, a riqueza, o luxo, a ostentação, o vício e tudo quanto o vício atrai, a corrupção fruto da ambição, a vaidade dos medíocres a dourar-se, o jogo e alucinação agiota da melhor fortuna, o amealhar e o exibir.
E li tudo isso nos seus livros, Maria Ondina, como o tinha lido nos do Camilo Pessanha, como o tinha lido no Wenceleslau de Moares porque há quem tenha olhos que vêm a desgraça do lixo onde assenta o luxo, os pedintes, os lazarentos, os párias, as bestas humanas que carregam gente quais animais de tiro atrelados aos rickshaws, há  olhos que por vezes têm vontade de cegar.
Mandaram-me este filme para me alegrarem o dia e uma tristeza infinita povoou-ma a alma, neste entardecer baço que é Portugal.
Estive lá e que terei feito daquela terra nesses onze meses para que a miséria ofensiva que encontrei fosse menos miséria e que terei feito de mim para que esta riqueza ostensiva me envergonhe?

A formiga laboriosa

Em tempos tive o sonho de conseguir ver editada a sua obra completa; ao mesmo tempo o de lhe escrever a biografia, não a da vida exterior, mas a da riquíssima vida interior. Os anos passaram e nada sucedeu. Fui a Braga, falei com familiares, consultei na Biblioteca Pública daquela cidade os registos que havia sobre o seu trabalho. Conversei com editores, aturei as maledicências de amigos que se imputavam mutuamente o abandono e o desinteresse quanto à sua pessoa. Comprei um a um todos os livros que escreveu. 
Talvez ainda seja capaz de realizar o que projectei. 
Nesta segunda-feira, ante as obrigações da profissão, os projectos de escrita a quem me comprometi, lembrei-me disso porque a minha amiga Teresa Guerreiro, formiga laboriosa na recolha amorosa do que é antigo, publicou uma sua fotografia. 
Não estou contente comigo. Pesa-me o que não fiz.

A triste efeméride

Em 2006 criei um blog dedicado a Maria Ondina Braga. Em 14 de Março de 2006 lembrei que era dia de aniversário da sua morte. Hoje o amigo Ernane Catroli, um devotado e sentido leitor de suas obras, lembrou-me a efeméride triste, com aquela discrição que é a sua suma delicadeza.
Lembrei como o tempo passou e como não cumpri aquilo a que me propusera: arranjar modo de ser editada a sua obra completa, escrever uma biografia do seu ser interior, o que viveu a vida com a intensidade recolhida como ela merece ser vivida.
Lembro-me de ter viajado até Braga falar com a família. Lembro-me de ter estado na Biblioteca Pública dessa cidade a copiar fichas bibliográficas que faziam a recensão das obras que traduziu. Lembro-me de ter falado com quem a conheceu, para que assim a conhecesse eu próprio um pouco melhor.
O destino quis, no entanto, que tudo operasse de uma outra forma: conheci alguém que vivia na mesma rua, para quem ela era a discreta mulher que passa. Uma história de amor deu azo a um escrita de enamoramento. É pelo caminho mais longo que se fazem as mais belas  viagens e na merecida companhia.

Um tempo só

Não sei qual a razão mas fantasiei que nunca terá encontrado quem amar. E li todos os seus livros em busca de uma pálida menção que fosse que me desse qualquer pegada dessa sua travessia pelas terras dos sentimentos e encontrei neles todos os amores possíveis por todas as possibilidades amorosas menos aquela que corre o grave risco de passar por ser o amor convencional: o amor que decorre da lei da atracção universal não dos corpos celestes mas dos corpos humanos, espécie de Lei de Newton da gravitação pela qual as almas se equilibram nas elípticas das suas órbitas sensitivas.
Tinha lido afinal tudo mal porque lera tudo distraidamente. Sei que se escrevem já teses de doutoramento sobre a sua escrita, haverá quem tudo leia por querer descortinar pela escrita a sua técnica de vida, como se viver fosse um método e contar o vivido um meio.
Esta noite, porém, abri ao acaso o Estátua de Sal e encontrei-o aquele homem «que não pertencia ao mundo dos mais». Era russo, fumava cachimbo e foi em Hong-Kong, o homem que tinha «os olhos de oiro», o homem que porventura não existiu.
«Não sei se bom se foi mau o nosso amor. sei que foi belo», diz Maria Ondina. «Quantas vezes nos teríamos encontrado? Se penso bem, afigura-se-me tudo um tempo só». Um breve instante, em cada momento a totalidade do tempo.

Uma entrevista

O Miguel Mota fez-me chegar a entrevista que ela deu a Júlio Valente para o "Primeiro de Janeiro" Não a conhecia. «Sou uma mulher que escolheu a solidão», foi o título escolhido, a resumir toda a sua biografia, vivida não a partir do saber mas do sofrimento. Tal como Irene Lisboa. Encontra-se aqui.

13 de Janeiro

Nasceste em Braga no dia de hoje, no ano de 1932. Um dos leitores que me escreveu disse-me que foi teu vizinho quando moravas em Benfica e te conhecia, discreta que eras, como «a mulher que passa».
Nasceu-me no peito por causa da tua obra uma afeição que se tornaria amor se o amor fosse possível. Li tudo teu, coleccionei tudo que te dizia respeito, tentei entender tudo sobre ti, quando poucos sabiam que tu existias. Sofri contigo o isolamento dos quartinhos em que viveste, a modéstia da tua vida, senti a mortificação pelo trabalho obrigatório de tradutora, a humilhação digna da tua solidão inconsolável.
Estiveste em Malanje, onde eu nasci e eu não sabia que tu estavas lá nem que tinhas viajado na mesma automotora em que viajei, porque não é possível um coração de criança saber o que a vida não lhe permite ainda conhecer. Estiveste em Macau, por onde eu passei, onde viveste a Macau que eu gostaria de ter vivido, estrangeira e recolhida, Deus como testemunha, os deserdados como teus irmãos. Estiveste em Goa onde eu gostaria de ter estado, salvo que escrevi um livro em que por ali se passou a história, o que foi uma forma de ter inventado uma estadia tão real como a que tivesse sido.
Penso tantas vezes escrever-te a biografia, uma narrativa só de interiores e de sentimentos, sem sensações, vivida num corpinho em que a luxúria se fez êxtase, a vida como uma oração.
Vim hoje aqui, onde quer que te julguem, dizer-te que estás comigo, Maria Ondina. É o dia do teu aniversário.

Moído de saudades

Voltei aqui moído por uma súbita saudade, carregado de recordações. Lembrei-me dos primeiros pontos de referência que me fizeram ligar à sua pessoa: o ter estado em Malanje, numa altura em que eu lá vivia, porque lá nasci, e afinal nem a sonhava e o ter estado em Macau, onde eu também estive; de estar um fim de tarde à conversa na casa do Dr. João Bigote Chorão, com uma janela como recanto de intimidade intelectual, que me falou dela com enlevo e carinho e sentida admiração; de me ter deslocado a Braga, de comboio, para conhecer-lhe a família, e ter conversado com uma irmã que me respondia ao que perguntava por bilhetinhos, incapaz já de falar; ter visitado a Biblioteca Pública e ali inventariar os livros que traduziu e foram muitos, pois as traduções eram parte substancial do seu sustento, quantas vezes não pagas nem os direitos da escrita; o ter acalentado a ideia de lhe editar - nem sei com que dinheiro - a Obra Completa, e ter encontrado, na voz de muitos, ao lado de palavras de encorajamento, tantas de desalento e os seus livros rareiam e tão poucos a conhecem; o ter sonhado escrever a sua biografia interior - a única que teve, aliás, porque a vida no mundo a que chamamos, incertos, de real, a pouco se reduz, essencialmente professora e escritora e tudo assim se resume.
Dediquei-lhe um blog, este blog, como um acto de amor. Ama-se uma pessoa que nunca conhecemos, que nunca nos viu, cuja vida não se cruza com a nossa. Ama-se quando sem desejo e sem posse.
Hoje o José António Velozo apareceu-me, generoso, amigo como sempre, com uma prenda comovente: dois livros dela, um deles com um autógrafo. Um deles na edição original, de que tinha ouvido apenas falar, tão longínquo como se uma referência bibliotecária que só com uma mnemónica se guarda: a Sociedade de Expansão Cultural.
Voltei aqui, Maria Ondina, moído por uma súbita saudade de ti. Vou ler a Estátua de Sal. Uma alma amiga pediu-me que o encontrasse. Deram-me hoje este exemplar. É a sua biografia. Em crónicas. o mundo retalhado. O seu pequeno mundo que pela escrita tornou grande.



Os Novos Forsyte


São 20 €. As referências estão aqui: «200366 -GALSWORTHY (John).-OS NOVOS FORSYTE. I . O Macaco Branco. II A Colher de Prata. III O Canto do Cisne. Tradução do 1º e 3º vol. e de Maria Ondina Braga do 2º vol. e de Jorge Rosa. Capa de Alberto Gomes. 3 vols. "Colecção Dois Mundos". Edição Livros do Brasil Lisboa. S.d. B.». Vi aqui no Aprendiz de Bibliófilo.
Coitada da Maria Ondina que se matou a trabalhar em traduções. Deste e de tantos outros livros. Quantas vezes mal recebendo, como se queixou numa entrevista ao Jornal de Letras.

Angústia em Pequim

Porque não desfrutar o livro pela sua capa? Descobri que isso era possível aqui. Angústia em Pequim é o relato de uma vivência. Expatriada como leitora de português, Maria Ondina vê acentuar-se o caminho de uma depressão que não mais a deixará. É uma história de infância, que o passar dos anos vai refinando. A arte não foi uma cura, sim um sintoma.

A Arte da Fuga

Conheceu-a e trabalhou com ela para redigir a sua tese de mestrado. Visitou-a na sua «casa-barco» pejada de recordações. Encontrei-lhe o livro. Graciosamente na net, gratuito, disponível.
A autora chama-se Maria Manuela da Mota Vale Braga de Oliveira. O seu livro tem um nome académico, oriundo da sua natureza: A Arte da "Fuga" em Maria Ondina Braga ou o Feminino em "Contraponto. Foi dado por findo em 1995. Está aqui.

Natal Chinês

«Mas tu, de olhinhos estreitos,


Jesus Menino dos chins,

Tu que recebes respeitos

De culis e mandarins».
 
Encontrei-o aqui. É um poema seu sobre o Natal na China, espécie de angústia em Pequim.

A automotora

«Parti na automotora das 8 e 30 da manhã. Comigo dezoito das internas, minhas alunas, rumo às suas casas no mesmo gozo de férias. Seguíamos juntas na automotora, com a diferença de eu vir, como as pessoas mais pacatas, sentadas no meu lugar, e elas na plataforma cantando e conversando com o revisor». É Maria Ondina, fazendo em Angola o caminho de Luanda à então chamada Vila Salazar. Claro que a automotora não é esta. Esta é minha.
P. S. O livro chama-se Eu Vim para Ver a Terra. A sua primeira obra em prosa.

Rara e magnífica

São raras, diz meu amigo Ernane Catroli e a ele devo esta fotografia. Raras e por isso magníficas, respondo-lhe, agradecendo e aqui fica, para todos: Maria Ondina Braga, nascida em Braga. Rara e magnífica pessoa.

Um mundo cão


«Aterrei em Pequim no Ano do Cão de 1982: um pobre rafeiro malhado de castanho e branco, cabisbaixo, olhos presos a uma carocha que se esgueira pela secura do chão. A saudade de avistar um cão, um gato, em Pequim! Nos bairros urbanos, o alti-falante a avisar de multas para quem tiver, cães, gatos criação. Daí os jovens pequineses nunca terem visto cães, e os que já os viram sentirem por eles nojo, se não medo». Chama-se Bichos esta crónica que Ondina Braga arquivou no seu livro Angústia em Pequim. Tenho-o na edição primitiva da Ulmeiro, de 1984 e na das Edições Rolim, de 1988, esta com o carimbo de verificação da tiragem, a anunciar um mundo de suspeitas, de aproveitamento, de autores a terem de se defender do mercado editorial e suas ordinarices. Um mundo cão.

Vidas vencidas

Vencer é uma palavra estranha na língua portuguesa porque significa derrotar mas significa ultrapassar. Livro biográfico, Vidas Vencidas, é um tule através do qual se pressente o mundo interior de transparências veladas, de intimidades contidas, doméstico, o que foi, afinal, a sua vida. «Quando é que a maior das paixões alguma vez compensou o menor dos ideais?», pergunta na página 13. Eis a sua biografia, de renúncia e de fantasia, idealizando a realidade. Um mundo de biombos e de sombras chinesas.

Prémio Maria Ondina

Maria Araújo da Silva, com um trabalho assinado sob o pseudónimo de Maria Lucas, é a vencedora do “Prémio Maria Ondina Braga” promovido pelo Município de Braga para «honrar a memória» da escritora bracarense. “Maria Ondina Braga - A Viagem em Demanda de Identidade” obteve a apreciação unânime do júri convidado pelo Pelouro Municipal da Cultura.
O prémio visa premiar escritores naturais de Braga ou em Braga residentes.
No trabalho vencedor, a autora «analisa com sagacidade temas essenciais para a compreensão da obra de Maria Ondina Braga, tais como a demanda da identidade, a abertura ao exótico e ao diferente na perseguição da alteridade, o jogo da revelação-ocultação do universo feminino e da sua dignificação e o regresso à infância».O trabalho motiva «viva recomendação» dos membros do júri à sua edição, uma vez que «constituirá um notável enriquecimento da crítica ondiniana e contribuirá para a divulgação e conhecimento a nível nacional da ilustre escritora bracarense».
Vi a notícia aqui. Fiquei tão contente em ver nela citado este blog como quando o Supremo Tribunal de Justiça cita um livro meu. Fraquezas humanas, talvez.

A velha tradução

Vi esta notícia: com prefácio de Nicholas Shakespeare e usando a velha tradução de Maria Ondina Braga, a Casa das Letras reeditou um dos livros mais fascinantes da literatura inglesa, ‘O Cônsul Honorário’, de Graham Greene. Não se pode perder.
Lembrei-me de uma entrevista da Maria Ondina, creio que ao JL, em que ela se queixava amargamente das costas doridas depois de horas à máquina a trabalhar em traduções e na escrita e como era mal paga e como por vezes não lhe pagavam. A vida desta mulher e a sua pobreza são uma ofensa ao mercantilismo editorial, à exploração, à pouca vergonha. Dedicada às letras, viu-se na contingência de ter de suportar uma vida de modéstia. Não porque não tivesse público, mas apesar de o ter. Referiu na entrevista inesquecível que apenas de uma editora recebeu escrupulosamente. Notável!

Quartos desabitados

Este fim de tarde deu-me para andar pelos quartos desabitados destes meus blogs. O da Maria Ondina Braga é um exemplo. «Filhos gerados sem paixão nasciam mortos», escreveu ela na novela A Visita, publicado em 1973 no livro Os Rostos de Jano. Este espaço que lhe destinei, pelo contrário, nasceu de uma profunda paixão pela sua escrita. Praticamente esquecida, por muitos desconsiderada, Maria Ondina é um exemplo de uma escrita no feminino excepcional pela sensibilidade, pela densidade dos sentimentos, pela agudeza da observação humana. Reclusa no seu universo pessoal, está ali contida, num interior existencial, a totalidade da essência do mundo que vale a pena ser vivido. Transmuta a carne em alma, toda a Natureza na Pessoa pela alquimia da literatura. Penaliza-me a sua ausência.

O Homem da Ilha

Só esta manhã dei conta, com aquela sensação de já ter lido algures. «Ficcionalmente, Maria Ondina Braga (1932-2003) evocou este colégio no seu conto Casa de Regeneração, publicado no livro Amor e Morte (1970; posteriormente, os contos deste volume foram refundidos e aumentados, surgindo num novo livro com o título O Homem da Ilha [1982])». Escreve-se no Blog da Rua Nove. Depois fui ver e, afinal, já tinha visto e já tinha citado e já não me lembrava senão tenuamente.

A falência do amor

O livro é uma pequena narrativa sobre o difícil amor a João e a impossibilidade do amor de Álvaro. A história de Francisca Teresa, a sua vida, o morar confinada: «esta casa um navio à deriva, a termiteira o beque da proa, cada um de nós um náufrago». É uma carta para Isa. «Isa: nas famílias há geralmente anéis que passam de geração para geração, ou certas feições, ou, digamos, uma vocação artistica. E doenças, esquisitices, tendências, por exemplo, para a hipocondria, o suicídio. Na nossa é a falência do amor».
O livro, o pequeno livro, chama-se A Casa Suspensa. Foi editado em 1982. É uma história de muitas histórias, comoventes, naufragadas, condensadas em instantâneos de eternidade: «Há séculos não chorava! Que, ao fim e ao cabo, o meu desafio tem sido a compaixão pública».