É uma entrevista que concedeu ao Primeiro de Janeiro. Júlio Valente conservou-a. Encontra-se aqui. Define-se como uma mulher que escolheu a solidão. Já a tinha mencionado neste blog. Esta noite fica a fotografia, a finura do porte, a doçura contida, o cruzar dos braços, refugiando-se em si.
As biografias aparentes
Duro, quando sério, paciente se meticuloso, o risco de um erro em cada palavra e frequentemente mal pago, não pago. Numa entrevista que concedeu a um jornal queixou-se disso mesmo. Era, ao lado do seu modesto salário como professora, uma das suas fontes de rendimentos para o frugal quotidiano.
Ontem na Biblioteca Pública Municipal do Porto encontrei um ficheiro com as obras que traduziu. Já em tempos tinha copiado parte da Biblioteca Pública Municipal de Braga. Estava com pouco tempo mas não hesitei. Uma a uma, completei a lista no blog que lhe dedico. Pode conter imprecisões. Estimar esse esforço é mostrar-me onde errei e o que falta.
Surpreendeu-me, por pura ignorância literária minha e guiado pelas aparências biográficas, que aquela alma diáfana tivesse traduzido Anais Nin, a obra que esta publicou na sua própria editora, em 1944. É dela a fotografia que orna este postal.
Espantou-me que eu tivesse lido Graham Greene e sobre ele escrito sem saber que ela o traduzira.
Confortou-me saber que entre tanta responsabilidade que tenho sobre os ombros, por causa da profissão, tanta preocupação que me cerca por causa do que a vida traz, eu tenha tido aquele trabalho, paciente, meticuloso, gratuito, numa manhã de chuvisco, incógnito, em homenagem a uma escrita que não quero que morra pelo esquecimento dos leitores e por isso desinteresse dos editores.
Conchas soterradas
Encontramos mensagens enterradas na correspondência que recebemos com conchas que a areia da praia soterrou. Hoje uma de Joaquim Emídio a dar-me conta de um artigo que escreveu no jornal O Mirante sobre a Maria Ondina Braga. «Durante muitos anos fui amigo e correspondi-me algumas vezes com uma escritora encantada chamada Maria Ondina Braga. Morreu a 14 de Março de 2003 com 71 anos e deixou uma Obra com mais de duas dezenas de volumes e muitas traduções de grandes escritores. Viajou muito pelo mundo mas foi morrer a Braga onde nasceu», escreve. Vou responder-lhe, explicando-me, mas antes quero vir aqui deixar esta admissão de uma falta. Estou triste comigo. Desconsidero quem por amizade se me dirige e sem saber que o estou a fazer. O texto completo do artigo está aqui. Com ele os meus remorsos.
Um e todos
De novo João Borges e um outro artigo seu sobre Maria Ondina: referência ao seu primeiro em prosa, o Eu Vim para Ver a Terra e à novela A Casa Suspensa. Obrigado ao autor por ter assinalado a sua referência. Todos não seremos demais para que não caia no esquecimento esta notável escritora. Aqui.
Lua de Sangue: contos pequenos de um grande livro
Pela gentileza do próprio, eis aqui o link para um artigo de João Borges sobre o livro Lua de Sangue de Maria Ondina Braga.
É verdade o que nele se diz a propósito do esquecimento em que caem os autores de contos.
«O público quer livros grandes», disse-me em tempos o Francisco Espadinha, da Editorial Presença, que se empenhou na divulgação da obra integral da Irene Lisboa, ela também ali lembrada.
O homem só e indefeso
Chegou a Malanje, a cidade onde eu nasci, de automotora, a ler um livro de Camilo Castelo Branco. Na palestra que em 1997 proferiu em Braga, para a comemoração do Dia Mundial do Livro, falou dos livros seus preferidos, detendo-se longamente no autor de A Queda de Um Anjo. Um vizinho, farmacêutico, o senhor Paiva, tinha dele a colecção completa, encadernada a verde. E ela, miúda ainda, insaciável, a trocar as brincadeiras infantis, pela leitura de um livro por dia e a seguir, através dele, o Destino, a trágica força motriz do que sucede e do que não acontece. «Para Camilo, pois, o Homem inteiramente à mercê do Bem e do Mal, ou seja, à mercê de si mesmo. Em suma, o homem só e indefeso». Como para a sua vida.
Uma dúzia de anos depois leria Camilo em Macau, no seu quartinho de professora. «E a meu tio, idoso e com princípio de cataratas, ler-lhe-ia também livros como A Corja, Novelas do Minho, A Brasileira de Prazins. Notáveis». Notável, sim, ela. Magnífica.
Museu Nogueira da Silva
O Museu Nogueira da Silva, em Braga, vai inaugurar na primavera um pólo permanente dedicado à escritora bracarense Maria Ondina Braga. O espaço vai ter o espólio literário e objectos da autora, uma sala para leitura e pesquisa da sua obra e envolve ainda um programa intenso, que inclui projectos escolares, tertúlias, concertos e exposições.
Entretanto, está também a ser concluído o levantamento, digitalização e inventário dos objectos e documentos do espólio de Ondina Braga, com a colaboração do Centro de Estudos Humanísticos da UMinho.
Entretanto, está também a ser concluído o levantamento, digitalização e inventário dos objectos e documentos do espólio de Ondina Braga, com a colaboração do Centro de Estudos Humanísticos da UMinho.
A Biblioteca Pública de Braga
Leio, agora com o livro enfim nas mãos, a descrição do que lera, quando lá estive, precisamente no austero lugar descrito: «Eu, contudo, não mais desterrada no pátio fundo, um livro a furto nos joelhos. A descer a Rua do Souto, eu, a subir os degraus da Biblioteca Pública. Preenchia uma ficha, apresentava o bilhete de identidade. Aquele rigor. Aquele respeito. Eu, até então, uma clandestina. A minha carta de alforria. A minha remissão».
É Maria Ondina Braga sobre a Biblioteca de Braga. Em Memórias e Mais Dizeres. Um pequeno texto editado em 1988.
Foi lá que compilei, socorrendo-me do ficheiro, a lista das obras que, sacrificada, traduziu. Viajei de comboio em busca da sua presença. Guardo ainda o projecto, o sonho e o amor, de escrever sobre ela, de o conseguir, de respeitar a sua alma sensível e dorida.
Um tição na noite fechada
Partilhamos o mesmo amor pela mesma mulher. Separa-nos o Atlântico, que é apenas um riacho na amizade. Nunca nos encontrámos pessoalmente, apenas as almas. Devo-lhe gentilezas reiteradas. Escreveu-me hoje a confessar que tem um «caso sério» com esta magnífica escritora. Como eu. Não há ciúme, porém, onde há o carinho pelo ser amado. Chama-se Ernane Catroli. Vive no Rio de Janeiro. É dele o texto que aqui arquivo.
«Era um rio. Um rio sem margens. Caudaloso. Encapelado.
De resto, a agonia das cores à hora do crepúsculo.
Antes, foram as gotas-d’água que faltavam para exilar meu antigo desejo de solução, de consolo. E somar espinhos ao que eu já suporto com dor e medo:
padre Antônio desistiu da batina na festa do padroeiro e insone a cidadezinha. Prima Alícia ateou fogo às vestes e, no alto da ladeira, um tição na noite fechada. Uma história de indumentárias. E cores. Quase. Mas de tão íntimo e irremediável sentir que não cabe pergunta.
Tão claro como um caminho claro, imperativo, insiste o que bordeja. Vislumbro os sinais. Decifro códigos. Dure pouco ou não: eu espero».
Uma noite em Macau
Tinha visto e sentido com todas as formas de sentir a miséria, o bairro flutuante, as mulheres que, de filhos às costas, tentavam atravessar a nado o Rio das Pérolas, para, vindas da República Popular da China, tentarem encontrar comida e uma vida de pobreza que fosse e que desaguavam, mortas por exaustão e afogamento, nas costas de Macau.
E tinha visto, então ainda incipiente, a riqueza, o luxo, a ostentação, o vício e tudo quanto o vício atrai, a corrupção fruto da ambição, a vaidade dos medíocres a dourar-se, o jogo e alucinação agiota da melhor fortuna, o amealhar e o exibir.
E li tudo isso nos seus livros, Maria Ondina, como o tinha lido nos do Camilo Pessanha, como o tinha lido no Wenceleslau de Moares porque há quem tenha olhos que vêm a desgraça do lixo onde assenta o luxo, os pedintes, os lazarentos, os párias, as bestas humanas que carregam gente quais animais de tiro atrelados aos rickshaws, há olhos que por vezes têm vontade de cegar.
Mandaram-me este filme para me alegrarem o dia e uma tristeza infinita povoou-ma a alma, neste entardecer baço que é Portugal.
Estive lá e que terei feito daquela terra nesses onze meses para que a miséria ofensiva que encontrei fosse menos miséria e que terei feito de mim para que esta riqueza ostensiva me envergonhe?
A formiga laboriosa
Em tempos tive o sonho de conseguir ver editada a sua obra completa; ao mesmo tempo o de lhe escrever a biografia, não a da vida exterior, mas a da riquíssima vida interior. Os anos passaram e nada sucedeu. Fui a Braga, falei com familiares, consultei na Biblioteca Pública daquela cidade os registos que havia sobre o seu trabalho. Conversei com editores, aturei as maledicências de amigos que se imputavam mutuamente o abandono e o desinteresse quanto à sua pessoa. Comprei um a um todos os livros que escreveu.
Talvez ainda seja capaz de realizar o que projectei.
Nesta segunda-feira, ante as obrigações da profissão, os projectos de escrita a quem me comprometi, lembrei-me disso porque a minha amiga Teresa Guerreiro, formiga laboriosa na recolha amorosa do que é antigo, publicou uma sua fotografia.
Não estou contente comigo. Pesa-me o que não fiz.
A triste efeméride
Em 2006 criei um blog dedicado a Maria Ondina Braga. Em 14 de Março de 2006 lembrei que era dia de aniversário da sua morte. Hoje o amigo Ernane Catroli, um devotado e sentido leitor de suas obras, lembrou-me a efeméride triste, com aquela discrição que é a sua suma delicadeza.
Lembrei como o tempo passou e como não cumpri aquilo a que me propusera: arranjar modo de ser editada a sua obra completa, escrever uma biografia do seu ser interior, o que viveu a vida com a intensidade recolhida como ela merece ser vivida.
Lembro-me de ter viajado até Braga falar com a família. Lembro-me de ter estado na Biblioteca Pública dessa cidade a copiar fichas bibliográficas que faziam a recensão das obras que traduziu. Lembro-me de ter falado com quem a conheceu, para que assim a conhecesse eu próprio um pouco melhor.
O destino quis, no entanto, que tudo operasse de uma outra forma: conheci alguém que vivia na mesma rua, para quem ela era a discreta mulher que passa. Uma história de amor deu azo a um escrita de enamoramento. É pelo caminho mais longo que se fazem as mais belas viagens e na merecida companhia.
Um tempo só
Não sei qual a razão mas fantasiei que nunca terá encontrado quem amar. E li todos os seus livros em busca de uma pálida menção que fosse que me desse qualquer pegada dessa sua travessia pelas terras dos sentimentos e encontrei neles todos os amores possíveis por todas as possibilidades amorosas menos aquela que corre o grave risco de passar por ser o amor convencional: o amor que decorre da lei da atracção universal não dos corpos celestes mas dos corpos humanos, espécie de Lei de Newton da gravitação pela qual as almas se equilibram nas elípticas das suas órbitas sensitivas.
Tinha lido afinal tudo mal porque lera tudo distraidamente. Sei que se escrevem já teses de doutoramento sobre a sua escrita, haverá quem tudo leia por querer descortinar pela escrita a sua técnica de vida, como se viver fosse um método e contar o vivido um meio.
Esta noite, porém, abri ao acaso o Estátua de Sal e encontrei-o aquele homem «que não pertencia ao mundo dos mais». Era russo, fumava cachimbo e foi em Hong-Kong, o homem que tinha «os olhos de oiro», o homem que porventura não existiu.
«Não sei se bom se foi mau o nosso amor. sei que foi belo», diz Maria Ondina. «Quantas vezes nos teríamos encontrado? Se penso bem, afigura-se-me tudo um tempo só». Um breve instante, em cada momento a totalidade do tempo.
Uma entrevista
O Miguel Mota fez-me chegar a entrevista que ela deu a Júlio Valente para o "Primeiro de Janeiro" Não a conhecia. «Sou uma mulher que escolheu a solidão», foi o título escolhido, a resumir toda a sua biografia, vivida não a partir do saber mas do sofrimento. Tal como Irene Lisboa. Encontra-se aqui.
13 de Janeiro
Nasceste em Braga no dia de hoje, no ano de 1932. Um dos leitores que me escreveu disse-me que foi teu vizinho quando moravas em Benfica e te conhecia, discreta que eras, como «a mulher que passa».
Nasceu-me no peito por causa da tua obra uma afeição que se tornaria amor se o amor fosse possível. Li tudo teu, coleccionei tudo que te dizia respeito, tentei entender tudo sobre ti, quando poucos sabiam que tu existias. Sofri contigo o isolamento dos quartinhos em que viveste, a modéstia da tua vida, senti a mortificação pelo trabalho obrigatório de tradutora, a humilhação digna da tua solidão inconsolável.
Estiveste em Malanje, onde eu nasci e eu não sabia que tu estavas lá nem que tinhas viajado na mesma automotora em que viajei, porque não é possível um coração de criança saber o que a vida não lhe permite ainda conhecer. Estiveste em Macau, por onde eu passei, onde viveste a Macau que eu gostaria de ter vivido, estrangeira e recolhida, Deus como testemunha, os deserdados como teus irmãos. Estiveste em Goa onde eu gostaria de ter estado, salvo que escrevi um livro em que por ali se passou a história, o que foi uma forma de ter inventado uma estadia tão real como a que tivesse sido.
Penso tantas vezes escrever-te a biografia, uma narrativa só de interiores e de sentimentos, sem sensações, vivida num corpinho em que a luxúria se fez êxtase, a vida como uma oração.
Vim hoje aqui, onde quer que te julguem, dizer-te que estás comigo, Maria Ondina. É o dia do teu aniversário.
Moído de saudades
Voltei aqui moído por uma súbita saudade, carregado de recordações. Lembrei-me dos primeiros pontos de referência que me fizeram ligar à sua pessoa: o ter estado em Malanje, numa altura em que eu lá vivia, porque lá nasci, e afinal nem a sonhava e o ter estado em Macau, onde eu também estive; de estar um fim de tarde à conversa na casa do Dr. João Bigote Chorão, com uma janela como recanto de intimidade intelectual, que me falou dela com enlevo e carinho e sentida admiração; de me ter deslocado a Braga, de comboio, para conhecer-lhe a família, e ter conversado com uma irmã que me respondia ao que perguntava por bilhetinhos, incapaz já de falar; ter visitado a Biblioteca Pública e ali inventariar os livros que traduziu e foram muitos, pois as traduções eram parte substancial do seu sustento, quantas vezes não pagas nem os direitos da escrita; o ter acalentado a ideia de lhe editar - nem sei com que dinheiro - a Obra Completa, e ter encontrado, na voz de muitos, ao lado de palavras de encorajamento, tantas de desalento e os seus livros rareiam e tão poucos a conhecem; o ter sonhado escrever a sua biografia interior - a única que teve, aliás, porque a vida no mundo a que chamamos, incertos, de real, a pouco se reduz, essencialmente professora e escritora e tudo assim se resume.
Dediquei-lhe um blog, este blog, como um acto de amor. Ama-se uma pessoa que nunca conhecemos, que nunca nos viu, cuja vida não se cruza com a nossa. Ama-se quando sem desejo e sem posse.
Hoje o José António Velozo apareceu-me, generoso, amigo como sempre, com uma prenda comovente: dois livros dela, um deles com um autógrafo. Um deles na edição original, de que tinha ouvido apenas falar, tão longínquo como se uma referência bibliotecária que só com uma mnemónica se guarda: a Sociedade de Expansão Cultural.
Voltei aqui, Maria Ondina, moído por uma súbita saudade de ti. Vou ler a Estátua de Sal. Uma alma amiga pediu-me que o encontrasse. Deram-me hoje este exemplar. É a sua biografia. Em crónicas. o mundo retalhado. O seu pequeno mundo que pela escrita tornou grande.
Os Novos Forsyte
São 20 €. As referências estão aqui: «200366 -GALSWORTHY (John).-OS NOVOS FORSYTE. I . O Macaco Branco. II A Colher de Prata. III O Canto do Cisne. Tradução do 1º e 3º vol. e de Maria Ondina Braga do 2º vol. e de Jorge Rosa. Capa de Alberto Gomes. 3 vols. "Colecção Dois Mundos". Edição Livros do Brasil Lisboa. S.d. B.». Vi aqui no Aprendiz de Bibliófilo.
Coitada da Maria Ondina que se matou a trabalhar em traduções. Deste e de tantos outros livros. Quantas vezes mal recebendo, como se queixou numa entrevista ao Jornal de Letras.
Angústia em Pequim
Porque não desfrutar o livro pela sua capa? Descobri que isso era possível aqui. Angústia em Pequim é o relato de uma vivência. Expatriada como leitora de português, Maria Ondina vê acentuar-se o caminho de uma depressão que não mais a deixará. É uma história de infância, que o passar dos anos vai refinando. A arte não foi uma cura, sim um sintoma.
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