A China fica ao lado, editado pela Panorama



Encontrei hoje, nas pesquisas que tenho vindo a fazer para uma publicação que espero conseguir efectivar, esta edição original, de 1968, pela Panorama. Nunca se conhece tudo. Há sempre uma surpresa quando menos se espera.

A Mina Abandonada


«Queres um "juvenil"?», perguntou a minha amiga Teresa, coleccionadora de livros e que, como eu, anda "ao papel". «De quem?», perguntei acrescentando «Da Maria Ondina?». «Sim!», foi a breve resposta.
Ele aqui está, acabado de chegar neste dia de Sol, aquecendo-me a alma.
Capa de Manuel Ferreira. 
Tinha-o anotado na lista que compilei, pacientemente, dos livros que Maria Ondina Braga traduziu, este para a Verbo e que esta editou, sem menção a data, depois de o ter mandado imprimir - apurei que em 1967 - na Póvoa do Varzim, terra da minha amiga Teresa e assim se demonstra quão circular é este pequeno Mundo.
No original, escrito em inglês australiano na variante da Tasmânia, incluindo, por isso, um léxico de localismos, chamava-se "Perversity of Pipers", um nome bem pouco juvenil.

A Porta


Quis o acaso, se tal existe que hoje, Dia Mundial do Livro, tivesse ido a casa da minha amiga Teresa Guerreiro, bibliófila inveterada, para ali encontrar e dali trazer quatros livros que ela descobriria serem dos traduzidos por Maria Ondina Braga, sob o meio pseudónimo "Maria Ondina".
Como já dissera aqui encontrei na Biblioteca Pública Municipal do Porto um ficheiro com as obras que traduzira e deixei ficar  sob reserva de ser uma lista incompleta - na lateral deste espaço.
Nada posso dizer do livro ou da tradução feita a partir do inglês do livro que hoje aqui trago. É este apontamento apenas memória de quem serviu a Literatura com o esforço, o sacrifício e a privação. Com modéstia e discrição.
É talvez esse o melhor testemunho que a mim próprio deixar, voltar a este local onde sou feliz

A volúpia dos vocábulos


Escrevi já várias vezes sobre este livro [ver aqui]. E volto a ele, menos talvez por ser, como tantos outros seus, biográfico, este mais explicitamente retrato da vida, mas porque com ele e a sua pureza essencial me sinto regenerado como se água límpida me banhasse do rio turvo e lodoso da vida corrente que me chega ao assomo da janela.
Regressei, desta vez na edição primitiva da Sociedade de Expansão Cultural, não pela apetência gulosa das primeiras edições, mas por ser exemplar que mão amiga do José António Veloso me fez chegar com a dedicatória a seu Pai, o juiz Francisco José Veloso.
Braga e a escrita uniram a escritora e aquele a quem dedicou a obra, para a qual Tomaz de Figueiredo escreveu «algumas palavras».
Tenho-o lido pela noite, em excertos, e neles o seu sentir por Macau, vinda de Goa, por Angola, pela Inglaterra, de que deixou a dor magoada da clausura, a excitação desperta pela Natureza, a fantasia do amor sonhado como bebedeira de mansa alucinação.
Povoada pela «solidão que se agarra ao peito como hera a um muro». vivendo «já só daquilo de que nenhuma pessoa pode viver - dos gestos, dos sons, das cores», envolta, precoce, na leitura, entre «a volúpia dos vocábulos, a tontura da sua música, o seu beijo cálido», o homem que, ao dobrar da esquina lhe embargou o passo, «a minha tristeza a abraçá-lo, longa, carinhosamente do jeito que os homens gostam de ser abraçados»

Morreu Ana Maria Amaro


A 7 de Agosto de 2007, correspondendo a uma carta minha escreveu-me pronta e amigavelmente: «conheci a escritora Maria Ondina Braga em Macau nos anos 1960, e éramos amigas. Convidei-a para participar na primeira semana cultural da China, organizada pelo Centro de Estudos Chineses que eu dirigia e foi recentemente extinto. (..)». E tanto mais partilhou, informação preciosa a que não dei seguimento, a rudeza das contingências adversas a intrometer-se. Era minha intenção e é minha intenção publicar-lhe a obra completa. Não sei se irei a tempo.
Sei agora, por gentileza do meu amigo Jorge Coimbra da seguinte notícia difundida pela Rádio Macau, sob o título: «Morreu a escritora e investigadora Ana Maria Amaro»

«O desaparecimento de Ana Maria Amaro é uma “perda importante” para a cultura de Macau, considera o editor Rogério Beltrão Coelho. A escritora e investigadora morreu esta semana em Portugal.
“Era uma pessoa cem por cento interessada na investigação sobre Macau, uma profunda conhecedora dos aspectos antropológicos e etnográficos de Macau, sobretudo até ao período em que esteve no território”, refere. “Uma das críticas que lhe eram feitas era no sentido de não se ter actualizado, continuar a pensar e a funcionar em relação a Macau como se estivesse nos anos 60 ou 70, mas isso não diminui, de forma alguma, o trabalho que deixou, a bibliografia vastíssima que ela deixou”, ressalva, destacando trabalhos de “grande profundidade”, nomeadamente sobre a medicina chinesa em Macau e das horas chinesas no território. “Estão para publicação num serviço público em Macau há dezenas de anos”, lamenta o editor.
Ana Maria Amaro viveu nas décadas de 60 e 70 em Macau, onde foi professora, mas nunca mais se desligou da temática do Oriente. Enquanto editor, Rogério Beltrão Coelho trabalhou de perto com a investigadora e recorda também uma mulher com “um feitio muito especial”, que deixa uma “obra notável”.
O editor lembra ainda que Ana Maria Amaro publicou vários artigos científicos sobre Macau, em revistas do território. Presidente do Instituto Português de Sinologia, nos últimos anos a investigadora dedicou-se ao registo da memória da escritora Ondina Braga.»

A controversa data de nascimento

Já o tinha referido neste blog [ver aqui], o problema da data de nascimento de Maria Ondina Braga. 
Mas agora, com mais detalhe, e por interpretação, o Doutor Agostinho Domingues, chega à essência do facto. Com a devida vénia ao Autor, aqui publicamos o seu texto. Convergimos no facto, fica o insondável do motivo. Numa alma como a sua o óbvio não é razão.


Quase um fado


Amante da obra de Maria Ondina Braga Ernane Catroli, irmão em Letras, escreveu:

«Aqui, o céu negro e fixo. Março pelo meio. O vento frio lá dos lados do rio: um introito. Assim, evitando detalhes. Que se fosse contar, só olhos vermelhos e choro desamparado. Que também, nem era hora de morrer! Onde um deserto? E revejo o antigo casarão de frente para a avenida ladeada das centenárias tílias. Os escaninhos da memória devolvendo-me inteira, nítida, a casa paterna que deixara ainda jovem e a cidade natal que a marcara para sempre: Braga. Não esquecer: também e sempre, o seu desejo de outras terras. Uma errância que lhe caíra como uma sina. A Inglaterra, a França e a Escócia onde estudara e trabalhara na sua juventude. E aí, então, os lares alheios. As marcas indeléveis. Mais tarde, Angola, Goa, Macau. Pequim depois. Uma vida dedicada a escrever, a traduzir. A lecionar. Em Macau, no antigo colégio de freiras onde também ocupava um quarto – um cubículo, separado de outros por biombos - na casa destinada às professoras, atrás da igreja do convento. Alta madrugada e ouvia-se o ressonar das companheiras. Tão próximas. Irmanadas no sono, no ofício e no salário pouco. A sua vida de recolhimento. De exílio. E que também muito dada ao silêncio. À solidão. Às vozes dos seus mortos. Um cotidiano povoado de personagens misteriosos, sedutores. As filigranas do seu texto, o seu sentir. Isso o que lhe sobrara, o que lhe ocupara, atendendo a um apelo interior, antigo, desde a infância. A infância. Esse território. Territórios. 
Aquela manhã envolta em brumas e o seu retorno à cidade natal... Uma senhora. O xale negro. Os ombros arqueados, um rosto de sombras. Até a missa na igreja de São Lázaro.Depois, o cortejo. O cemitério dos Arcos. Um silêncio. Tanto.»

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Ernane Catroli do Carmo nasceu em 1953, em Sant'Anna de Cataguases, Minas Gerais, onde viveu a infância e adolescência. Formado em Farmácia e Bioquímica, UFRJ (1976). Funcionário público, reside no Rio de Janeiro onde trabalha na área da saúde. Publica regularmente em alguns blogues destinados à cultura.

A personagem: a hesitação em ler


Hesitei ler este livro. E, no entanto, há anos que o tenho comigo. Desgraçadamente o exemplar que encontrei tem a boçalidade de um vómito verbal de um qualquer seu anterior possuidor, logo após a epígrafe, que é a de um verso do António Ramos Rosa. Ali ficará a conspurcá-lo, doendo-me cada vez que me defronto com essa profanação.
Porquê a incerteza quanto a lê-lo? Porque e escrita tem tudo de diferente do que Maria Ondina escrevera e escreveria? É verdade. Há aqui uma linguagem directa, o falar que se fala todos os dias a causar sensação epidérmica de estranheza tratando-se de uma escritora que traz ao leitor o sedoso cetim da delicadeza e o áspero burel das alheias dores sentidas como suas.
Por se tratar de um diário escrito na primeira pessoa em que, por isso, o leitor pressente ser aquela a verdade da fantasia que gerara apenas como autora e não auto-biógrafa, aqui jornalista, incerta de amores, trabalhadora nocturna entre vulgaridades, vergada ao cansaço de tradutora como sobrevivência e tanto assim foi, afinal? 
Talvez, porque a imaginaríamos, para a sentir mais nossa, na clausura monacal do seu quartinho de professora, entre meninas de expressão contida e um alma dorida de solidão silenciosa e aqui nada disto sucede, o social irrompe e com ele o que se viveu entre nós em 1974.
Não sei o que diga nesta hora nocturna em que leio.
Sei que, agora que a leitura se consuma, progrido sem sublinhar o que seja que me detenha nesta narrativa tão longínqua do que me fez apaixonar pela sua escrita. 
O quotidiano secou nela a rosa da candura. A realidade empobreceu-a. 
Sonha-se o amor como o que se oferecer, não imaginando o aquém que foi aceite. Também aqui, é esta a história da personagem.

A persistência e o amor

É entrevista concedida por Maria Ondina Braga ao jornal O Estado de São Paulo. Devo a gentileza, como tantas antecedentes a Ernane Catroli. Conta a génese da sua escrita, do seu envolvimento com os livros. Dos que não eram editados. Dos que só vendia na Feira do Livro. De tudo o que se tornou grande começando mínimo. Da persistência como amor à obra.


Património imaterial


«Património imaterial da cidade de Braga». Assim ficará designada. Lê-se a notícia aqui
Lentamente, a cidade natal lança da sua memória a presença. E a posse. A ela regressou para morrer. Viveu ausente.
Nunca é tarde para reconhecermos os nossos. Os que pertencem à peregrinação, a trágica viagem dos portugueses, cujo destino viaja a bordo.

Dez anos depois...


Soube hoje que perfazem dez anos que morreu Maria Ondina Braga. O jornal Macau Hoje dedicou-lhe um suplemento [ler aqui].
Estou longe dos seus livros, só posso escrever de memória, uma memória nublada pelo sentimento. 
Dediquei-me à sua escrita, criando este blog. Hoje tem na sua terra natal um espaço que lhe é dedicado [ver aqui].
Que me diz esta escrita que não desisto de ver editada em obra completa?
Repito-me ao dizer: fala-me, muito intimamente da Malanje onde nasci e onde ela leccionou, onde chegou de automotora a ler Camilo Castelo Branco. Fala-me de Macau e China onde eu pernoitei numa noite da vida que durou onze meses. Só  da Índia de onde saiu no último contingente antes da invasão pela União Indiana fala sem que eu me reconheça.
É uma escrita minha que eu gostaria que fosse de todos os outros. Mas sem ilusões, porém.
Fala escrevendo, que é a sua forma de dizer.
Hoje os vivos recuperam-na da lei do esquecimento a que a votaram. Nisso as efemérides ajudam até ao próximo virar de folha. Amanhã voltaremos a estar praticamente sós. 
«É uma escrita que não vende», disse-me um editor, «tal como a da Irene Lisboa». Talvez por ser triste, uma tristeza nascida na clausura da revolta mansa. Não por ser um escrever historicamente situado, porque o humano que por ali perpassa é o Homem de sempre, esse ser vagueante que ela foi buscar aos confins enegrecidos do porto interior do Rio das Pérolas, à recatada Inglaterra rural, à luxuriante África. Seguramente por ser uma escrita do interior sensível, a alma peregrina como aqui já disse.
Ler Maria Ondina é hoje saber apreciar da sensibilidade a delicadeza, da sensualidade a fineza de trato. É vê-la, contrita, nos seus quartinhos acanhados de professora a conviver com a modéstia, a alimentar-se de privação, pressenti-la nocturna, entre véus de segredos que mal afloram, púdicos, naquela ânsia de dar-se quase sem ter a quem. É uma escrita que na voracidade do nosso tempo tem, é certo, um número limitado de apreciadores. Não há decadência, antes dignidade, está limpa de vulgaridades, não é extensiva para poder ser vendável aos que dos livros gostam do grosso tomo a desfolhar desatentamente.
Mesmo que seja hoje para muito poucos, será para cada vez mais. É essa a sua grandeza, envergonhar-mo-nos por a termos ignorado.

Homenagem de um leitor



Em 2006 iniciei este blog que dediquei à sua obra. Na altura pouquíssimos se lembravam dela. Acalentei o sonho de ver a sua obra integral publicada. Um editor disse-me que não teria leitores, outro que talvez obtivesse um subsídio mas só para a a escrita "macaense", visto os apoios que se originam de ou a propósito desse território.
Estive em Braga na inauguração do espaço que no Museu Nogueira da Silva lhe é dedicado, feliz ao vê-lo corporizar-se. Vejo que ganha forma a estruturação on line da sua obra, como se vê aqui.
Sou apenas um leitor. Leal para com a sua obra, sabendo o que são vidas vencidas.

A que jamais o mundo compreendeu...


Li esta noite a primeira parte do livro de versos O Meu Sentir, editado em Braga em 1949, o ano em que eu nasci, tinha Maria Ondina, como expliquei aqui, vinte e sete anos.
Talvez possa encontrar-se na poesia uma biografia, sobretudo quando ela é íntima, e surge como um falar da alma, pegadas na neve do caminhado, ou pelo menos sentir um pressentimento de como foi.
Há por esta escrita ingénua, o retrato do seu ser sensitivo, «tristinha», de uma «tristura», constrangida «frio e de pavor», povoada pela mística, «triste e excitada», a «alegria branca de noviça», «o prazer agridoce de ser só».
Mas, há também o arroubo da paixão, fulgurante «passarinho com garras de leão», corpo incendiado por «beijo que por ser dado sobre a boca/me abafou um suspiro...e me pôs louca».
Livros de saudades de uma Mãe que se foi «amiga de verdade», que num poema chamado "Ela" surge no inesperado retrato, a adensar mistério, o «sorriso cheio de doçura», o «olhar de paz e de bondade» e, eis o ambíguo, «bem junto ao meu, seu coração amante/pulsava, carinhoso e vigilante», livro prenunciador de viagem, Ondina errante, ela que sofria de «lonjura e de ansiedade», a confessar-se «sinto às vezes desejos de fugir/para terra ignorada, sítio incerto/p'ra onde haja só silêncio a florir/e estrelinhas de paz em céu aberto», «fugir, fugir», fugir «p'ra sentir todos longe...e Deus mais perto».
De todos os versos, talvez Ansiedade tenha sido o que mais vincou a sensibilidade, de uma pueril grandeza, premonitório de todo o tempo por viver: «hás-de dizer ao mundo que sou eu/aquela que padece...mas não grita/a que jamais o mundo compreendeu/a louca, a descontente, a esquisita; por trás do tempo, qual espesso véu/perscruto uma outra vida mais bonita!/que importa se ninguém a conheceu?/a minha alma é céguinha e acredita; e um dia, além dos montes, p'la tardinha/hei-de achar essa vida...há-de ser minha!/há-de trazer consigo a Paz Bendita!; então dirás ao mundo; lá morreu/a que jamais o mundo compreendeu:/a louca, a descontente, a esquisita.»

Uma vida sem idade

Rectifico hoje neste blog o que já deveria ter sido feito há mais tempo, a data de nascimento de Maria Ondina Braga: 1922 e não, como corre e do que me fiz eco, 1932.
Devo a amabilidade da informação a Luís Braga, seu sobrinho, que a partilhou comigo já em 2008. 
A partir daqui e como me lembrou a análise da sua obra terá de ser encarada. O livrinho de poemas O Meu Sentir que já referi aqui e também aqui, não foi, assim, escrito quando ela tinha dezassete anos, sim vinte e sete.
Fora isso é uma obra sem idade, como se o tempo na sua vida tivesse estagnado, extasiado, em redor de si.
E já agora outro esclarecimento vindo da mesma fonte: as ilustrações do livro, como a que copio para este post, são de José Virgílio Braga, irmão mais novo de Ondina, pai de Luís Braga.

Uma alma peregrina

Publiquei este artigo no último número do jornal cultural Artes entre as Letras. Com a devida permissão aqui fica, como memória.

«Há escritas que parecem cruzar-se com a nossa biografia, sem que, no entanto, suspeitássemos da sua existência. São uma espécie de alma que nos ilumina o espírito, companhia invisível na solidão que se vive no gregarismo.
Senti isto quando soube da existência de Maria Ondina Braga, porque tinha chegado a Malanje, onde eu nasci, na mesma automotora que foi tanta vez nosso meio de transporte até Luanda, ela, porém, a ler Camilo Castelo Branco. Porque esteve em Macau onde eu pernoitei um pesadelo da minha vida intervalar, ela, professora, a viver por antecipação o que seria mais tarde o magnífico livro Angústia em Pequim. Com a diferença de que passou fugazmente pela Índia, na hora da retirada da bandeira portuguesa, como se o infortúnio fizesse gala em persegui-la, exilando-a em perpétuo movimento.
Procurei-a em Braga. Já não conseguiu ler a carta que eu escrevera, a declarar-lhe, como numa confissão amorosa, a minha dedicação, reunida a quase totalidade dos seus livros, lidos, aberto um blogue em sua honra. Recebi então das mãos da família a memória do que fora a sua vida, e a gentileza dos seus dois primeiros e únicos livros de versos. Assinava Maria Ondina, apenas.
Escrevo sobre uma escritora cujos livros não existem, esparsamente reeditados. É uma escrita que não vende, porque intimista, num mercado hoje saturado por banalidades descritivas que dão ao leitor a sensação de que, assim, na vulgaridade coscuvilheira, poderia ser também escritor. Além disso são tristes, e a exploração da dor exige um marketing que a promova e comercialize, contada a doença ao pormenor, forçado o martiriólogo e a promessa reiterada de ser o fim, adiado, porém, o fim para a próxima edição. E falam de um espírito impregnado de misticismo, que se consumiu como um círio, a apagar-se com num crepúsculo do Sol no horizonte, nela a religião das igrejas da terra-mãe a diluir-se, evanescente, no corpo celeste das religiões orientais.
Tal como Irene Lisboa, uma mulher só. Tal como ela, mas ainda mais encerrada no seu quartinho interior, e uma acrescida sensibilidade quase panteísta ao mistério da existência. Tal como ela a dar grandeza ao que é pequeno.
Quando primeiro na Biblioteca Pública de Braga e depois na Biblioteca Pública Municipal do Porto percorri, uma a uma, as fichas do catálogo para reconstituir quanto traduzira, pressenti de quanta escravidão fizera ganha-pão, de quanta privação fora feita a sua vida quotidiana, quanta exploração.
A minha Maria José conheceu-a no que é dela o símbolo da existência, partilhando morada na mesma rua, ela uma garota melancólica, Maria Ondina «a mulher que passava», solitária ambas na sua reclusão interior.
Sonhei um dia que poderia patrocinar a edição das suas Obras Completas. Não desisti do projecto. Mobilizei boas vontades. Percebi quantas seriam as dificuldades. Não sei com que capital, sei com que ânimo.
Pensei que seria capaz de um dia escrever do que viveu a biografia interior, ela que quase não teve viver histórico, a pouco se resumindo os factos do que se convencionou chamar a vida real. Tropecei então em testemunhos que se queriam já apoderar da memória, mal disfarçados ajustes póstumos de contas, a injustiça cruel de vivos para com a bondade gentil dos que morreram.
Fui a semana passada a Braga. O Museu Nogueira da Silva inaugurou um espaço que lhe é dedicado. E porá em acesso na Internet o seu espólio, legado pela família, a completar com a correspondência íntima com Jacinto Prado Coelho.
Regressei a casa como se ungido pelo mistério da sua pessoa.
Dela dir-se-á de quanto traduz o multiculturalismo. Dela dirão os que quiserem reconstruir-lhe o ser visível, hoje oficial, retirado do esquecimento, a sua existência feita pequena glória local, enfim reconhecida. A rua é a mesma rua em que nasceu, dir-se-ia as mesmas flores.
Viveu uma África onde surpreendeu o êxtase da Natureza, a glória da festa da chuva, a fecundação da terra, o apelo grave dos mistérios da noite. Viveu da Inglaterra a penumbra da dignidade daquele viver por subtração, a modéstia de haveres como brasão de honraria. Viveu o Macau do porto interior, da miséria humana flutuante, irreconhecível por certo aos que foram ao saque da árvore das patacas.
Maria Ondina Braga. Se Portugal tem uma alma saudosa, ela é a expressão da alma portuguesa. Peregrinou. Regressou a casa, reintegrando-se consigo, reconciliada com Deus. Uma notável escritora.»

Uma alma peregrina

Será vaidade. Mas não resisti a precipitar-me sobre o jornal. E, no entanto, escrevi tanta coisa que aguardei com ânsia. Mas não com este sentimento de preocupado desejo. É o reencontro com o que se sentiu vertido agora em papel. Está no As Artes entre as Letras de hoje, o jornal literário que no Porto se edita. Dediquei-o a Maria Ondina Braga.
Por respeito ao jornal não edito aqui o texto. Mais tarde, seguramente, com vénia e gratidão a quem mo publicou. «Se Portugal tem uma alma saudosa, ela é a expressão da alma portuguesa».

A pálida luz

Foi esta tarde em Braga no Museu Nogueira da Silva, na Rua Central, mesmo ao lado da casa onde nasceu. Inaugurou-se ali um espaço simbólico que lhe é dedicado. Chega-se até ele por um jardim perfumado de roseiras. Espaço exíguo como o dos quartinhos acanhados de professora em que viveu. Ali estão alguns objectos, cartas, a fotografia última da sala de trabalho da sua casa em Lisboa, na Rua Cláudio Nunes, em Benfica. Última porque depois partiria, as malas feitas, para a última viagem, ela errática alma que povoa, como uma discreta névoa, os céus de tão longínquas pátrias.
Discursos, uma análise de leitor, um testemunho comovido de Luís Soares Barbosa, seu sobrinho, a abrir uma ponta do véu sobre a alma amorosa de quem da paixão parecia ausente, ela «sensitiva flor, tão frágil, tão nua, que a crestam os ventos de qualquer jardim». Em breve chegará ao seu espólio o epistolário desse desabrochar no ser os sentimentos pelas sensações.
De todas as imagens possíveis que poderiam simbolizar neste local ignoto esse momento deixo esta. Quando o iniciei em 2006 pouquíssimos queriam saber desta mulher. Hoje surge da penumbra para a pálida luz. Ali estivemos, unidos em torno do que nem sonhávamos uniria.

Viver sempre, cansa...

É uma entrevista que concedeu ao Primeiro de Janeiro. Júlio Valente conservou-a. Encontra-se aqui. Define-se como uma mulher que escolheu a solidão. Já a tinha mencionado neste blog. Esta noite fica a fotografia, a finura do porte, a doçura contida, o cruzar dos braços, refugiando-se em si.

Inauguração do Espaço Maria Ondina

As biografias aparentes

Duro, quando sério, paciente se meticuloso, o risco de um erro em cada palavra e frequentemente mal pago, não pago. Numa entrevista que concedeu a um jornal queixou-se disso mesmo. Era, ao lado do seu modesto salário como professora, uma das suas fontes de rendimentos para o frugal quotidiano. 
Ontem na Biblioteca Pública Municipal do Porto encontrei um ficheiro com as obras que traduziu. Já em tempos tinha copiado parte da Biblioteca Pública Municipal de Braga. Estava com pouco tempo mas não hesitei. Uma a uma, completei a lista no blog que lhe dedico. Pode conter imprecisões. Estimar esse esforço é mostrar-me onde errei e o que falta.
Surpreendeu-me, por pura ignorância literária minha e guiado pelas aparências biográficas, que aquela alma diáfana tivesse traduzido Anais Nin, a obra que esta publicou na sua própria editora, em 1944. É dela a fotografia que orna este postal.
Espantou-me que eu tivesse lido Graham Greene e sobre ele escrito sem saber que ela o traduzira.
Confortou-me saber que entre tanta responsabilidade que tenho sobre os ombros, por causa da profissão, tanta preocupação que me cerca por causa do que a vida traz, eu tenha tido aquele trabalho, paciente, meticuloso, gratuito, numa manhã de chuvisco, incógnito, em homenagem a uma escrita que não quero que morra pelo esquecimento dos leitores e por isso desinteresse dos editores.